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As consequências do colapso do mercado de ações chinês

Os investidores frequentemente se preocupam com as altas avaliações do mercado de ações nos Estados Unidos. Os valores das ações são muito mais elevados na China, muito além do que pode ser aceito como crescimento normal. A exuberância excessiva nos mercados chineses ainda terão consequências desastrosas, tanto a curto quanto a longo prazo. Os sinais de sobrevalorização estão por toda parte, com as ações aumentando quase 50% em 2015. O mercado está a sendo cada vez mais impulsionado por especuladores, ao invés de dados econômicos. A quantidade de novos investidores e todo o dinheiro adicional, que estão sendo derramados nos mercados da China, está tornando a situação completamente insustentável.

Como a segunda maior economia do mundo, o que acontece com os mercados na China é de grande importância. A principal preocupação do governo, por enquanto, é a desaceleração geral da economia doméstica. Isto está tendo prioridade sobre os outros problemas. Com os relatórios do setor manufatureiro apresentando uma situação mista, os analistas estão apostando em ainda mais em estímulos por parte das autoridades governamentais. Além disso, os jornais chineses, que são apoiados pelo Estado, continuam a insistir que os fundamentos da alta do mercado (bull market) na China permanecem sólidos.

A China e outras grandes economias em desenvolvimento pelo PIB per capita em paridade de poder de compra, 1990-2013. O rápido crescimento econômico da China (vermelho) é facilmente perceptível.

O Shanghai Composite encerrou o dia em 4,7% e a tecnológica Shenzhen Composite subiu 5,1%, na segunda-feira, 1 de junho. O índice CSI300, que lista as maiores empresas da China, aumentou 4,9%. Isso foi o maior aumento em um único dia desde Dezembro de 2012.

Isso foi depois das grandes perdas que ocorreram na semana passada. Em 28 de maio, estas duas bolsas testemunharam perdas de 6,5% e 5,5%, respectivamente. A bolsa de Xangai terminou uma série de altas que vinham ocorrendo por 7 dias, com a segunda pior sessão de negociações em 2015. Para a Shenzhen, os resultados das negociações para o dia mostraram a terceira maior queda nos preços em 5 anos. Como pode ser visto claramente, a volatilidade nos mercados chineses está aumentando.

O PMI (Índice Gerentes de Compras) de manufatura da China, que examina as maiores empresas do país, testemunhou um pequeno aumento. A estatística que era de 50,1 em abril, foi para 50,2 em maio, como era esperado. No entanto, o resultado final de uma pesquisa privada formulada pelo HSBC / Markit, que foca em pequenas e médias empresas, foi um terceiro mês de contração. Ele aumentou de 49,1% para 49,2% no mês passado, mas ainda permanece abaixo do nível de 50%, que separa expansão de contração. A pesquisa também mostrou que as encomendas de exportações caíram consideravelmente, a uma taxa que não se via a quase 2 anos.

No entanto, os investidores na China estão seguindo o típico padrão de um mercado em alta. Ou seja, toda vez que há uma queda nas ações, imediatamente após isso há uma nova onda de investimentos para aproveitar os preços temporariamente mais baixos. Para muitos especuladores a queda no mercado na semana passada foi uma coisa boa, porque reduziu substancialmente os riscos para os investidores, permitindo novas oportunidades de compra.

A bolsa de Shenzhen

A ChiNext, um mercado para as empresas recém-criadas empresas chinesas, aumentou a valorização em 300%. Uma incrível quantidade de dinheiro está sendo despejado aqui, em um curto espaço de tempo. A riqueza total investida está se aproximando de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) do país. As empresas listadas nesta bolsa estão conseguindo valorizações 140 vezes maiores do que os lucros do ano passado. As ações listadas na Shenzhen Composite têm atualmente uma relação de cotação/lucros por ação (price earnings ratio P/E) de 64. Ainda mais preocupante é o P/E das empresas de menor porte, que atualmente estão com uma média de 80. A maioria dos investidores no mundo iriam ver qualquer coisa acima de uma taxa de 25, a ser cotado além do que é prudente para consideração.

Bolsa de valores de Hong Kong

Empresas que estão listadas tanto em Xangai quanto em Hong Kong, estão sendo negociadas a quase 30% a mais em Xangai. Embora essa diferenciação já exista há muitos anos, ela está agora em sua maior alta em 4 anos. Agora que o dinheiro chinês pode ser mais facilmente investido em Hong Kong, esta diferenciação deveria estar diminuindo. Algumas empresas têm quase o dobro da valorização do que no resto da China.

Milhões de novas contas de corretagem estão sendo abertas toda semana. O problema com esta situação é que muitos desses novos clientes estão investindo dinheiro que compreende as poupanças das famílias chinesas ou proveniente de empréstimos. O fato de pedir dinheiro emprestado para fazer um investimento, na crença de que as valorizações das ações continuarão a aumentar, está criando uma enorme bolha no mercado.

Os resultados a curto prazo do colapso que inevitavelmente vai ocorrer, serão devastadores para muitos investidores, bem como para as muitas empresas que também entraram nessa onda de investimento. Os margin financing (financiamento com respaldo de ativos do mercado de capitais) que muitos investidores precisam para financiar apenas parte do risco total do investimento, contribui para o problema. Esta prática tem aumentado na China, 500% só no último ano, atingindo o equivalente a $325 bilhões de dólares (Dólar dos Estados Unidos). Quando o mercado finalmente inverter, esses clientes terão de recarregar as suas contas com mais dinheiro. Isso vai se tornar cada vez mais difícil, à medida que os investidores estão cada vez mais imprudentes com suas compras de ações, que estão muito além de seus verdadeiros valores.

Os analistas internacionais calcularam que várias formas de investimentos financiados por dívidas nos mercados de ações chineses, poderiam estar tão altos quanto 9% da capitalização do mercado. A esse nível, isto seria pelo menos 5 vezes maior do que o que normalmente existe nas economias mais desenvolvidas do Ocidente.

Bolsa de Shenzhen (interior)

Embora o tamanho total dos mercados em relação ao PIB da China ainda é de apenas 40%, eles estão crescendo rapidamente. A capitalização do mercado em percentagem do PIB nas partes economicamente mais avançados do mundo, incluindo Austrália, Canadá, Europa, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e algumas outras partes da Ásia e da América Latina, está mais perto de 100%.

Quando o crash nos mercados chineses finalmente chegar, ele ocorrerá de forma diferente para Hong Kong em comparação com o resto do país. Enquanto que na China propriamente dita existem controles que suspendem as negociações quando o mercado ganha ou perde mais de 10%, em Hong Kong, estes salvaguardas não existem. O pânico na ex-colônia sem dúvida irá se espalhar para o resto da China, onde um declínio será administrado durante dias, ou talvez mesmo semanas, caso a situação ficar fora de controle.

Os efeitos a longo prazo da crise que está por vir nos mercados chineses, irão afetar não somente a China, mas também todos as bolsas redor do mundo. O último colapso que ocorreu na China foi em 2007. Levou vários anos até que os preços das ações chinesas se recuperassem. Muitos investidores saíram do mercado por completo, à medida que reguladores assumiram um papel mais ativo no controle dos preços e dos movimentos do mercado.

A situação financeira atual da China é muito mais complicada. A primeira consideração é que, ao contrário de 8 anos atrás, a economia chinesa está crescendo a um ritmo mais lento, cerca de 7%, ao invés de mais de 10%. Além disso, o país está muito mais endividado internamente. Em 2008, a dívida total do país em relação ao PIB era de 150%. Em 2015, este número aumentou para mais de 250%. A China tornou-se muito dependente dos empréstimos domésticos durante os últimos anos.

Corredores vazios do New South China Mall, que tem poucas lojas alugadas.

Um colapso nos mercados acionistas iria basicamente cortar o financiamento para grande parte do setor empresarial, isso devido ao instável sistema bancário da China. O setor financeiro já está sobrecarregado pelos inúmeros maus empréstimos feitos para o setor imobiliário, quando este estava superaquecido. O setor imobiliário estava muito aquecido, tanto em habitação quanto nos segmentos comerciais.

Pior ainda, um colapso dos mercados irá fazer com que o governo regule ainda mais as bolsas, o que irá acabar com grande parte do financiamento privado de empresas, especialmente as que estão iniciando suas operações. A liberalização financeira na China provavelmente vai desacelerar mais uma vez. O relaxamento dos controles de capital e as regras sobre as taxas de juros que os bancos podem cobrar por empréstimos e para pagamento aos depositantes, são os mais recentes exemplos da crescente abertura.

Grande parte da presente especulação no mercado acionário chinês é devido à falta de forças de mercado, forças essas que iriam deter os excessos. Para começar, permitindo aos investidores chineses um maior acesso as bolsas estrangeiras, iria aliviar um pouco da pressão ascendente sobre os preços das ações dentro da China. Outra reforma necessária seria permitir mais stock shorting (quando um investidor vende uma ação que não lhe pertence, antecipando que esta ação irá desvalorizar; após isso ele compra ação similar por valor menor para devolver a ação para o broker), o que colocaria maior pressão descendente sobre os preços das ações. Os reguladores chineses também são muito lentos na listagem de novas ações, que, caso o processo fosse mais rápido, daria aos investidores um número maior de ações para escolher.

Bolsa de Hong Kong

No ponto em que estamos, a pergunta já não é mais se o colapso dos mercados de ações chineses irá chegar, mas sim quando.  Uma grande reversão na Europa, ou nos Estados Unidos, poderia muito bem agir como o catalisador que irá trazer uma crise para as ações chinesas. A liderança chinesa decidiu concentrar-se no crescimento econômico, da economia como um todo. Como resultado, eles agora estão menos propensos a interferir no mercado de ações. Talvez não haja uma compreensão completa do que está em jogo ou, talvez as autoridades já se convenceram de que haverá outra grande correção do mercado, independente das ações do governo.

Uma grande crise no mercado acionário chinês poderia reverberar muito além das divisas do país. Talvez esse seja o evento que irá finalmente encerrar o bull market (série de altas nas bolsas) nos Estados Unidos e causar um “curto-circuito” na recuperação dos câmbios em outros lugares. A Europa e o Japão não irão escapar das consequências de um grande colapso das ações chinesas. A reação em cadeia de um colapso das bolsas da China poderia levar o mundo inteiro a um pânico financeiro, que logo em seguida, levaria a uma nova recessão global.

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