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Para os investidores, a crise na Grécia irá continuar

A crise na Grécia vai continuar, independente do resultado das atuais negociações entre o governo e a troika de credores (a troika é uma gíria para as três organizações que têm o maior poder sobre o futuro financeiro da Grécia. Os três grupos são a Comissão Europeia (CE), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Central Europeu (BCE)). Os investidores irão descobrir que a Grécia ficará atolada em dívidas pelos próximos anos, porque a economia não será capaz de crescer o suficiente para cobrir as atuais despesas e responsabilidades. A ideia de que no futuro será gerada renda suficiente para pagar a enorme dívida que o país tem com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e o governo alemão, através da Comissão Europeia, é absurda. A austeridade necessária neste momento para atender as inúmeras obrigações financeiras do governo grego é politicamente insustentável.

A realidade é que os cidadãos gregos desejam manter um padrão de vida compatível com o de países desenvolvidos. O fato que a economia grega não pode mais sustentar este padrão nas atuais circunstâncias, é algo que muitas pessoas no interior do país se recusam a admitir. O atual governo (Syriza) chegou ao poder no início do ano, convencendo os eleitores gregos que havia uma maneira de contornar a austeridade; que de alguma forma a Grécia seria capaz de renegociar o pagamento da dívida e, ao mesmo tempo, reverter as restrições de gastos que foram impostas pelo governo anterior.

Protestos na Grécia

As perspectivas para a economia grega não são nada boas. Atualmente a taxa de desemprego está em mais de 26%. Dados recentes mostram que o número de pessoas sem trabalho há mais de um ano saltou de 67,1%, em 2013, para 73,5% em 2014. Este não é um sinal encorajador e é um dos mais elevados na zona do euro. Quanto mais tempo um indivíduo ficar desempregado, menores são as chances dele/dela se juntar à força de trabalho novamente.

Os gregos também têm um problema demográfico. O país já tem uma das percentagens mais elevadas de idosos em sua população, em torno de 19,5%. A taxa de natalidade no interior do país não é suficiente para substituir a atual população. Além disso, mais e mais pessoas, especialmente os jovens adultos, estão emigrando pois acham que terão um melhor futuro fora de seu país de origem. Assim, o país está perdendo cada vez mais rápido os seus talentos e recursos humanos, à medida que a economia grega continua a ir mal.

O resultado de uma população em declínio é que haverá muito menos trabalhadores disponíveis para sustentar o sistema de pensão, no futuro. Os pagamentos para os idosos já estão absorvendo perto de 75% de todos os gastos do governo central que não são para o pagamento da dívida. Isso é, do montante utilizado apenas para pagar os juros da dívida, sem qualquer esperança de reduzir a quantidade real. Independente de qualquer acordo, esta situação com relação a população grega não vai mudar tão cedo.

A dívida nacional da Grécia está atualmente perto de $379 bilhões de dólares (Dólar dos Estados Unidos), ou 336 bilhões de euros. Os juros sobre o elevado montante da dívida já é superior a $25 bilhões por ano. Tal montante equivale a $798 USD por segundo. A Grécia tem uma população de pouco mais de 11 milhões de habitantes, de modo que a dívida contraída equivale a $34.349 USD por cidadão.

O PIB (Produto Interno Bruto) da Grécia é um pouco maior do que $192 bilhões de dólares, o equivalente a 170.6 bilhões de euros. A dívida total está agora em 196,86% do PIB. Entre os países do mundo industrializado, somente o Japão tem uma quantidade comparável de dívidas. A taxa japonesa da dívida em relação ao PIB é de 199,55%. Em comparação, a dívida da Itália vem em 140,59%, 133,15% para Portugal e, 114,50% para a Irlanda.

As economias destas nações que estão “montadas” na dívida não se comparam favoravelmente as economias de outros países industrializados, se considerarmos a dívida em relação ao PIB, como a do Reino Unido, em 82,06%, a da Espanha, em 86,09%, da França, em 94,83% e a da Alemanha, em 68,81%. Os Estados Unidos vem em 105,13%. Toda vez que o volume da dívida seja superior ao PIB, devemos nos preocupar.

Normalmente, uma nação altamente endividada iria tomar medidas para desvalorizar a sua moeda e tentar aumentar as suas exportações, a fim de sair do atoleiro financeiro. A inflação interna, juntamente com um excesso nas contas externas devido a venda de exportações desvalorizadas, iriam proporcionaria uma solução parcial para a enorme dívida do país, por mais doloroso que fosse. A economia grega é bastante dependente do transporte marítimo, dos serviços e do turismo. Estes setores econômicos iriam ser beneficiados por uma moeda grega mais fraca, caso isso ocorresse.

Dívida Pública, PIB, taxa de dívida pública em relação ao PIB.

Todavia esta opção não está disponível para a Grécia, uma vez que ela é um membro da zona do Euro. Sair da zona da moeda comum teria custos e no momento não é o que a maioria dos eleitores gregos querem. No entanto, um futuro financeiro cada vez mais incerto, vai acabar deixando o governo da Grécia sem muitas alternativas. Os credores do país estão exigindo cortes nas despesas, que o antigo governo que estava no poder havia acordado com.

O governo grego tinha, em 2014, alcançado um saldo orçamental primário para o ano de 2015, pelo menos no papel. Isto é, as receitas cobrindo os gastos, menos os pagamentos de juros da dívida. Isso teria sido o primeiro orçamento equilibrado do país, depois de quatro décadas esbanjando dinheiro. Uma vez que os pagamentos da dívida, no valor de USD 4,1 bilhões dólares, eram iguais a 3% do PIB grego, a troika de credores pediu cortes adicionais nos gastos do governo.

As demandas para mais economia após 6 anos de recessão e austeridade eram inviáveis, considerando o estado de espírito dos eleitores gregos, que estão cada vez mais impacientes. Os resultados das eleições no início de 2015 provaram isso. Os cortes de impostos e outros incentivos de crescimento do governo anterior, em sua maioria, caducaram. As demissões de funcionários públicos foram revertidas e, as reformas prometidas para a previdência foram totalmente abandonadas. Na verdade, o novo governo tem insistido que os cortes no sistema de aposentadoria são inviáveis atualmente, tanto quanto negociações. Afinal, isso foi prometido pelos políticos do atual governo durante as eleições.

Taxas de juros de longo prazo (rendimentos no mercado secundário de títulos públicos com maturidades de perto a dez anos) da maioria dos países da zona euro.

Syriza chegou ao poder com uma política anti-austeridade e, será difícil para a troika de credores convencê-los a continuar com a autodisciplina fiscal, que foi imposta e acordada pela coalizão anterior, que era mais conservadora.

O superávit primário que foi alcançado no primeiro trimestre de 2015, de $1,98 bilhões de dólares (1,74 bilhões de euros) não vai durar, a medida que os gastos governamentais irão aumentando por causa do cumprimento das promessas eleitorais.

De acordo com o governo grego, as demandas por cortes nas pensões e novos aumentos de impostos feitos por credores estrangeiros, irão atrapalhar a pequena recuperação econômica que o país está experimentando agora.

O impasse atual está afetando negativamente o mercado de ações grego. Na sexta-feira passada o mercado diminuiu mais de 4%, e a mesma coisa aconteceu nesta segunda-feira. Na terça-feira o mercado caiu ainda mais, em 4,7%. Os investidores estão perdendo cada vez mais a confiança de que uma solução para a crise será encontrada. O banco central da Grécia já previu que o fracasso de um acordo terá consequências desastrosas para o país.

A economia da Grécia tem um longo caminho a percorrer antes de se recuperar da queda de 25% do PIB, desde 2010. Pior ainda, a Grécia está perdendo rapidamente o seu apelo como um lugar para investimentos. A Fundação Heritage, em seu índice anual de Liberdade Econômica, rebaixou o país em 1,7 pontos. A razão citada é a deterioração substancial no controle dos gastos do governo. Também houve um declínio na liberdade fiscal, trabalhista e de negócios. A Grécia está em 40o na lista de países da região europeia, que tem 43 países ao todo. A pontuação geral de 54 pontos está abaixo das médias regionais e mundiais.

Desde 2011, a pontuação no índice diminuiu em 6,3 pontos, com o país caindo em 7 das 10 categorias medidas. O ranking dos países moderadamente livres tem caído, em sua maioria, para a categoria de não-livres. Com o 10o maior declínio de pontuação no índice de 2015, a Grécia está registrando o seu menor grau econômico, jamais visto.

O presidente do Partido Syriza , e atual da Grécia, Alexis Tsipras

Junto com uma dívida insuperável, a Grécia ainda sofre com uma corrupção generalizada, evasão fiscal, e um declínio no cumprimento das leis. Os direitos de propriedade estão sendo aplicados muito menos vigorosamente. Os esforços do governo anterior em criar um mercado mais amigável para negócios também estagnaram. A força trabalhista continua rígida e letárgica na sua adaptação para a atual realidade da economia. A Grécia continua mantendo suas barreiras erguidas. Os serviços profissionais são um excelente exemplo.

Além disso, o investimento estrangeiro é limitado em vários setores. O sistema financeiro está começando a apertar o cinto a pressão contínua da crise, com empréstimos inadimplentes representando mais de 30% do total da carteira dos bancos domésticos. Se o setor bancário grego não estivesse recebendo subsídios substanciais do BCE (Banco Central Europeu), haveria um pânico entre a população à medida que bancos individuais começassem a falir.

Apesar da insistência por parte do governo grego em dizer o contrário, uma reforma regulamentar continua difícil de ser alcançada. Ela está muito atrás de todos os outros países da União Europeia. Apesar de que o tempo de abertura de um novo negócio na Grécia parecer ser razoável, em torno de 13 dias e com 5 procedimentos, a realidade é bem diferente. Os requisitos para licenciamento ainda demoram pelo menos cerca de 4 meses, em média.

A taxa de imposto de renda individual na Grécia é de 42% e, a taxa de imposto corporativo é de 26%, mas, como foi dito anteriormente, a evasão fiscal é generalizada. Há também um imposto sobre valor acrescentado e os impostos imobiliários. A receita fiscal é igual a 33,8% do PIB, com as despesas públicas comendo 58,5% da produção nacional.

Estima-se que o crescimento econômico da Grécia (no PIB) irá será de míseros 0,5% em 2015, e um possível 2,9% em 2016. Tais números são melhores que o crescimento de 0,08% em 2014 e a taxa negativa de 3,9%, em 2013. No entanto, a atual crise financeira poderia facilmente comprometer qualquer melhoria no PIB da Grécia.

Logo do Partido Syrzia

As escolhas financeiras que o governo terá que fazer ficarão cada vez mais difíceis e, a probabilidade de uma saída da Grécia da zona do euro só vai aumentar, à medida que o ano avança. Soluções de curto prazo e financiamentos de última hora (stop gap), como ataques aos planos de pensão e as contas bancárias do governo local, não irão resolver a crise da dívida grega. Nem mesmo um bailout temporário por parte dos atuais credores irá resolver o problema. Ou os gregos não pagarão a sua dívida ou, as instituições financeiras que mantêm os empréstimos terão de começar a cancelar grande parte da dívida grega.

Austeridade mais rigorosa não vai funcionar com o atual governo. Caso ele cair por causa da crise, não se sabe o que virá em seguida. Uma liderança mais flexível poderia entrar no poder, assim como uma mais radical também poderia. Medidas mais severas não são mais possíveis no âmbito do atual clima político da Grécia. Atualmente, investir capital estrangeiro no país já não é mais um bom rico calculado. Na verdade, a alienação está se tornando uma abordagem muito melhor. A única exceção para essa regra pode ser a propriedade imóveis individuais.

Taxa de juros dos títulos com maturidade de dois anos do governo grego, no mercado secundário, refletindo a avaliação do mercado sobre risco de investimento.

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