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A atual crise na Europa: será que o Euro irá sobreviver?

De certa maneira o maior problema com a Comunidade Econômica Europeia (CEE) é a moeda comum que é utilizada, conhecida como o Euro. Embora seja um meio global de câmbio e que preside sobre a maior zona econômica do mundo, tem havido constantes dificuldades desde a sua adoção, em 1999. Apenas 19 dos 28 membros da CEE adotaram o euro como moeda nacional. Alguns analistas pensam que talvez haja muitos países na Zona do Euro. O problema não é o número de nações, mas sim a diversidade cultural entre eles, quando se trata de assuntos financeiros e fiscais.

A ampla circulação do Euro não chegou até o ano de 2002. Antes disso, houve certa dificuldade na avaliação da nova moeda. Desde o início estava previsto que o euro iria ser comercializado acima do valor do dólar (Dólar dos Estados Unidos). O resultado foi bem diferente. Embora que no final do primeiro dia de negociações, 05 de janeiro de 1999, o euro estava cotado a $1,19 USD, até o final do ano, a moeda estava em paridade.

Mais à frente, o Euro caiu para uma baixa inter-dia de $0,8296 USD, no dia 26 de Outubro de 2001, e houve até um pequeno colapso no dia 15 de janeiro de 2002. Nessa data, o euro caiu para uma taxa reduzida de $0,8115 USD. Logo em seguida, o G-7 (as sete principais economias desenvolvidas do mundo), solicitou que a uma ação de emergência fosse posta em prática até o final de 2001, para apoiar o euro, visto que a desvalorização da moeda estava causando uma queda nos mercados financeiros mundiais. Todavia, o euro conseguiu se recuperar. A última vez que o Euro fechou abaixo de $1,00 USD foi no dia 06 de novembro de 2002.

Taxa de câmbio Euro-USD, a partir de 2002.

Após esse período de reajuste, o euro continuou a valorizar. Em 2004, a valorização tinha chegado a $1,35 USD. O pico veio em 14 de Julho de 2008, quando a moeda atingiu uma alta de $1,5916 USD. Como o euro também valorizou em relação à libra esterlina (moeda nacional do Reino Unido), o uso internacional da moeda comum aumentou dramaticamente.

A quota global de reservas cambiais para o Euro aumentou de 18% em 1999, para 25% em 2003. O dólar americano caiu por uma margem equivalente. Em 2007 haviam muitos especialistas monetários dizendo que o euro iria em breve ultrapassar o dólar dos Estados Unidos, como a moeda mais importante do mundo.

O euro se tornou uma moeda de reserva no seu início, porque ele herdou esse papel do marco alemão, que detinha 13,8% do total do mercado cambial mundial em 1998. Em comparação, o dólar dos Estados Unidos detinha 69,3% do total. No ano seguinte, o euro capturou 17,9% do mercado mundial e, o dólar americano expandiu sua participação para 71% do total.

Até 2009, o euro já tinha adquirido 27,6% do mercado cambial mundial. Os Estados Unidos tiveram uma queda correspondente ao crescimento da nova moeda, ficando com aproximadamente 62,1%. Em 2014, a participação dos Estados Unidos tinha permanecido basicamente a mesma, em 62,9%, mas o Euro caiu para 22,2%.

Londres, capital do Reino Unido

O euro continua a ser a segunda moeda mais utilizada no mundo, apesar da recente desvalorização, que tem acelerado com o advento da taxa de juros abaixo de zero e uma terceira rodada de flexibilização quantitativa (QE).

Em contraste, a libra esterlina britânica tem desfrutado de um ligeiro ressurgimento, devido a atuação de Londres no mercado financeiro internacional e a função da moeda como um proxy para o euro. No entanto, embora a libra seja a quarta maior moeda de reserva mundial, ela só responde por 3,8% do total. O iene japonês é apenas ligeiramente maior, com 4%.

As nações que originalmente compunham a Zona do Euro eram a Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Portugal e a Espanha. Uma nova expansão ocorreu com a chegada da Grécia, em 2001, e da Eslovênia em 2007. Em 2008, Chipre e Malta se juntaram ao grupo, seguidos pela Eslováquia em 2009. Mais tarde, os países bálticos seriam admitidos. Primeiro a Estônia, em 2011, em seguida a Letônia, em 2014 e, finalmente, a Lituânia em 2015.

A dívida pública em relação ao PIB dos principais países da Zona do Euro e também do Reino Unido, de 2008 a 2011.

Já tarde, em 2007, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos, Allan Greenspan, afirmou que o euro poderia eventualmente substituir o dólar como a principal moeda de reserva do mundo. Para sermos justos, dois eventos ocorreram desde então. Um deles, que a expansão do Euro com a CEE (Comunidade Econômica Europeia) tem desacelerado a decisão do Reino Unido de manter a libra como sendo a moeda mais notável.

O segundo fator é que a depreciação do dólar dos Estados Unidos tem sido revertida, pelo menos temporariamente. A presente turbulência nos mercados de câmbio mundiais tornou o dólar americano mais atraente, tanto para um grande número de investidores internacionais quanto para os bancos centrais de vários países.

O ponto fulcral da zona do euro é a Alemanha. Foi a força da marco alemão que fez com que a moeda comum da Europa fosse possível. Poucos irão recordar que os alemães estavam muito relutantes em largar de mão da sua moeda, que estava muito estável, e que também tinha sido parte do milagre econômico que ocorreu após a Segunda Guerra Mundial.

Berlim, capital da Alemanha

O momento crítico ocorreu quando a possibilidade de reunificação da Alemanha se tornou realidade, após o colapso da ordem soviética na Europa Oriental. Tanto a França quanto o Reino Unido se opuseram à fusão da Alemanha Oriental com a Alemanha Ocidental. Estas duas nações, separadamente, tentaram influenciar a União Soviética para impedir tal fusão. Eles estavam apreensivos sobre a possibilidade de uma Alemanha ainda mais forte na Europa central. No entanto, os franceses finalmente decidiram apoiar a reunificação, isso se os alemães se comprometessem a uma união monetária.

Como resultado da crise financeira global de 2007/2008, a Zona do Euro entrou em recessão a partir do terceiro trimestre de 2008, e permaneceria nesse estado até o segundo trimestre de 2009. A medida que a CEE, como um todo, começou a recuperar o crescimento econômico, outro problema veio à tona: a crise da dívida soberana.

Défice orçamental da Zona do Euro em comparação com os Estados Unidos e o Reino Unido.

Durante este período, foi decidido reforçar as regras dentro da Zona do Euro, que culminou em 2011 com as reformas no Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE). Uma nova reforma do Pacto de Estabilidade e Crescimento, naquele mesmo ano, foi feita com o intuito de codificar as regras e penalidades por via de procedimentos automáticos. Eles entrariam em vigor sempre que cada uma das nações deixasse de seguir as novas regras, sobre os défices orçamentais e os níveis da dívida soberana.

De acordo com as regras orçamentais acordadas pelos Estados membros, os défices públicos não poderiam ultrapassar 3% do PIB (Produto Interno Bruto) em um determinado ano. A dívida soberana não deveria exceder 60% do PIB. Se o nível de dívida total acabasse ultrapassando o limite imposto, a nação em questão deveria implementar um plano para trazer o nível de volta abaixo do benchmark. Tal como referido pela parte de regulamentação preventiva do acordo, todos os Estados-Membros da UE são obrigados a apresentar anualmente um relatório de conformidade para este efeito.

Angela Merkel, chanceler da Alemanha 2005 – Presente

Embora haja alguma flexibilidade com relação a estes dois requisitos durante tempos de recessão e de crescimento lento, tem ficado cada vez mais difícil para os países-membros aderirem às restrições fiscais. Nos últimos tempos somente a Alemanha, entre os principais países, tem sido capaz de manter as despesas abaixo dos níveis prescritos.

Há uma proporção cada vez maior de políticos, em vários países pertencentes a Zona do Euro, que estão questionando os benefícios de ser parte de, e, de permanecer na zona da moeda comum. O discurso, em um número cada vez mais de nações, é se as atuais restrições de gastos e austeridade valem o preço de permanecer na Zona do Euro.

A Europa, como um todo, tem uma proporção de 91,9% de dívida em relação ao PIB. A Zona do Euro está atualmente em 93,91%. Isso é muito superior à taxa acordada. Há pouco tempo atrás, em 2010, este nível era de 80%. Em 2008 estava tão baixo quanto 66,2%. Individualmente, quase todos os países da zona do euro têm níveis de endividamento que excedem em muito os níveis acordados. Até o final de 2014 a França estava em 95%. Espanha divulgou uma taxa de 97,70%, com a Holanda reportando razoáveis 68,80%. Até mesmo os frugais alemães estão com 72,99%. A Itália divulgou gritantes 132,32%, com a endividada Grécia reportando 174,1%.

O Reino Unido, que faz parte da CEE mas não a área da moeda comum, está com um nível de dívida de 88,91%, para 2015. A independente Suíça, que permaneceu fora da CEE, registou uma taxa muito menor, de 34,20% em 2014.

As nações nórdicas e a Europa Oriental são as únicas nações que aderiram às regras da acumulação de dívida. Ao norte, em 2015, a Dinamarca mantém uma taxa endividamento de 42,42% em relação ao PIB, com a Suécia em 44,03%. Ambas estas nações fazem parte da CEE, mas não fazem parte da Zona do Euro. A Finlândia atualmente está um pouco acima do limite, em 60,97%.

No leste, a Bulgária possui a taxa de endividamento de 28,74%, sendo a taxa para a República Checa é de 41,71%, 50,97% para a Polônia, e 39,97% para a Romênia. Estas nações também fazem parte da CEE, mas não pertencem a zona da moeda comum. As duas menores nações da região também podem se gabar de taxas de endividamento bem abaixo dos 60%; elas são a Eslováquia e a Eslovênia.

As nações do Báltico, no nordeste, exibem uma gestão mais responsável da dívida com relação ao PIB. O nível de endividamento da Estônia é de apenas 10,60%, o da Letônia, 38,33%, e o da Lituânia, em 42,82%. No entanto, estes pequenos países têm um impacto muito menor sobre a CEE e a Zona do Euro do que os outros países que compõe os blocos.

Nações do Báltico

Mais progresso tem sido feito no processo de orçamento anual, onde os alemães continuam a insistir que os países membros sigam as regras, como a única maneira de gerir a dívida a longo prazo. A CEE, como um todo, mantém um déficit anual de -2,24%, que realmente fica abaixo da taxa de 3%.

As nações que irão exceder essa taxa em 2015 são a Croácia, Chipre, Finlândia, França, Irlanda, Portugal, Eslovênia e Espanha. O Reino Unido, com sua própria moeda, ainda está com um déficit de -4,11%.

Todavia, três países irão gerar um pequeno excedente em 2015, que são a Estônia, Luxemburgo, e a mais importante, Alemanha, em +0,49%.

Frankfurt, a capital financeira da Alemanha.

A liderança financeira da Alemanha se recusa a aderir aos apelos de alguns dos outros países europeus e da Administração Obama nos Estados Unidos, que insistem que se a Alemanha tivesse déficits, isso iria ajudar o crescimento no mercado interno e em outros lugares. Embora um eventual aumento das despesas iria estimular a economia no curto prazo, o crescimento a longo prazo iria ser prejudicado, já que o aumento da dívida iria acabar pesando muito. Pelo menos é isso que os planejadores econômicos alemães em Frankfurt (capital financeira da Alemanha e da zona euro) pensam.

Recentemente, o valor do euro caiu em relação ao dólar americano, para $1,10 para cada euro. Isso resultou em algumas vantagens, que vão junto com a recente depreciação da moeda comum. As exportações europeias, especialmente aquelas da Alemanha, por exemplo, tornaram-se muito mais competitivas nos mercados mundiais. A Alemanha continua sendo o segundo maior exportador do mundo e, está expandindo sua liderança sobre os outros países.

Somente este setor de exportações contribui, sozinho, com um terço da economia alemã. O recorde no valor total das exportações alemãs foi atingido em março deste ano, com 107.652,08 bilhões de euros, o equivalente a $118.594,91 bilhões de dólares. O valor total das importações ficou em baixos 84,5 bilhões de euros. Como resultado, as reservas cambiais alemães estão subindo rapidamente. É nisto que os economistas alemães e os líderes políticos permanecem focados em.

Por vários anos a Zona do Euro funcionou relativamente bem na arena do comércio, com a Alemanha vendendo seus produtos na Europa Mediterrânea a um ritmo acelerado. Os países da região continuaram a comprar produtos alemães para além do que era viável, não podendo mais pagar por eles, uma vez que as suas economias não estavam mais em crescimento.

Os alemães continuaram exportando para esses países, através de empréstimos de bancos comerciais, do BCE (Banco Central Europeu) e de outras instituições europeias. O problema veio quando o nível da dívida aumentou para além do que poderia ser financiado de forma prudente.

Os países da Europa Mediterrânea e algumas nações em outros lugares da Zona do Euro, foram finalmente forçados a austeridade. Isso aconteceu porque, como um grupo, continuaram a gastar dinheiro com programas sociais e benefícios que, em uma época de baixo crescimento, simplesmente se tornaram insustentáveis. Os grandes déficits orçamentários e, os déficits comerciais acima mencionados, forçaram esses países a pegar emprestado quantias de dinheiro cada vez maiores.

Mudança não programada de governos em países da Zona do Euro (marcados em vermelho) devido à crise.

À medida que o nível total de endividamento ficou cada vez maior, a inadimplência e a possível falência tornaram-se fortes possibilidades. Isso foi quando essas nações começaram a receber empréstimos adicionais, porém agora, com restrições. Estes países seriam obrigados a tornar-se mais competitivos, através de reformas econômicas e maior contenção fiscal. Esta política logo seria conhecida por toda a Europa como austeridade. Era o plano de ação que os alemães insistiram em, caso os empréstimos continuassem a ser oferecidos.

Para manter a Alemanha na Zona do Euro, é crucial que os benefícios de ser parte de uma zona monetária continuem a superar os malefícios. A viabilidade do Euro não será decidida em Atenas, Roma ou Madrid, que formam a periferia da Zona do Euro. Não será determinada em Paris ou até mesmo Bruxelas, a capital política de facto da União Europeia. O destino final do Euro encontra-se nas mãos dos banqueiros em Frankfurt e dos políticos da capital da alemã, em Berlim.

 

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