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Alemanha, o pivô e o banco da Europa

No final do século 19 o Império Alemão era a nação mais poderosa do continente europeu, tanto militarmente quanto economicamente. Só a Grã-Bretanha podia desafiar a Alemanha Imperial, devido à força de sua Marinha Real e os recursos que a ilha tinha disponível para amparar ela. O Império Britânico dominava os mares, mas os alemães tinham o maior e mais forte exército da Europa.

Dresden Frauenkirche

À medida que o século 20 despontou, ficou claro que as economias da Alemanha e os Estados Unidos iriam ultrapassar às de seus rivais, um setor após o outro. A Grã-Bretanha, também conhecida como Reino Unido, já tinha sido economicamente ultrapassada pelos Estados Unidos na década de 1870. Agora, no começo do século 20, os alemães estavam fazendo isso também. Pior ainda, o governo alemão havia autorizado a rápida ampliação de sua marinha, que logo iria desafiar a supremacia britânica nos mares.

Fundação do Império Alemão em Versalhes, 1871. Bismarck está no centro em um uniforme branco.

Em termos de diplomacia, a Alemanha Imperial do final do século 19, sob a égide do chanceler Otto von Bismarck, muitas vezes desempenhou o papel de árbitro entre as principais potências da Europa. O chanceler considerava o Império Alemão como sendo uma potência satisfeita, sendo assim, o país podia se dar ao luxo de ser um mediador honesto, a fim de manter a paz e equilíbrio de poderes na Europa.

Isso se tornou uma questão pessoal para Bismarck. Ele tinha como objetivo evitar uma guerra na Europa, pois isso seria um evento que poderia desfazer a maior conquista de seu mandato, que foi a unificação e criação do Império Alemão.

À medida que o Império Alemão foi ficando mais forte, uma parcela cada vez maior dos negócios da Europa estavam sendo realizados na capital alemã, Berlim. No entanto, Londres continuava sendo a capital financeira do mundo, até depois da Primeira Guerra Mundial. Foi só então, na crise fiscal do pós-guerra no início da década de 1920, que Nova York e os Estados Unidos iriam ultrapassar os britânicos. À medida que o século 20 avançava, uma parcela cada vez maior de serviços bancários e de investimentos se originaram nos Estados Unidos.

O Império Alemão (1871-1918), com o Reino da Prússia em azul

Houve outra guerra desastrosa na Europa e, no rescaldo, os assuntos da Europa seriam agora determinados pelas duas novas superpotências, a União Soviética e os Estados Unidos. Desgastada pela guerra, a Europa só conseguiria ter voz ativa sobre o futuro, atrás do coletivismo. A fundação da Comunidade Econômica Europeia (CEE) chegou nos anos seguintes a Segunda Guerra Mundial. Isto permitiu a recuperação econômica do continente e também um retorno gradual à normalidade.

O fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética, durante os últimos anos do século 20, proporcionaram uma nova oportunidade para a CEE se expandir para o leste europeu. Logo, a Europa conseguiu se unir economicamente, como a Alemanha tinha feito pouco mais do que uma década antes.

Foi a unificação da Alemanha que deu o impulso necessário para a criação de uma moeda única. A França só iria concordar com a incorporação da Alemanha Oriental e Ocidental, caso os alemães concordassem com uma moeda comum. Assim, uma década mais tarde, o euro nasceu. A esperança dos franceses e dos outros países da CEE, foi que através da incorporação da Alemanha nos auspícios das instituições europeias, eles conseguiriam conter a crescente força e vitalidade da economia alemã.

A chegada do século 21 não mudou muita coisa, pois essa estratégia foi parcialmente bem sucedida. Embora os alemães continuem a trabalhar com as várias organizações da CEE, está cada vez mais evidente que a força e o domínio da economia alemã não podem ser negadas. A prudente forma como a administração fiscal da economia alemã é tocada, juntamente com o espetacular crescimento das exportações do país, fizeram da nova Alemanha a principal potência econômica da Europa, mais uma vez.

Zonas de ocupação na Alemanha, 1947. Os territórios a leste da linha Oder-Neisse, sob controle polonês e soviético (em branco).

Apesar da perda de 51,49% da área terrestre do país, desde os tempos do Império, a Alemanha conseguiu se manter como uma potência na indústria transformadora, em muitos dos setores que mais exportam. Poucas nações poderiam perder tantas terras e recursos naturais, como aconteceu com a Alemanha e, ainda assim, conseguir manter seu poder econômico. Com apenas 137.847 milhas quadradas (357.021 quilômetros quadrados) restantes, a nação de aproximadamente 81 milhões de habitantes se viu forçada a usar a indústria, como forma de proporcionar à população uma maneira de crescer e prosperar.

A perda da área de Alsace Lorraine, produtora de minério de ferro, e Alta Silésia, rica em minérios, forçou a Alemanha a trabalhar de maneira mais cooperativa com os países vizinhos, a fim de adquirir os recursos necessários para a produção industrial. A perda da maior parte da Pomerania, e também da Silesia, Prússia do Leste e Oeste, forçou a Alemanha a importar quantidades muito maiores de produtos alimentícios, sendo essa a única maneira de alimentar os crescentes centros industriais do país de forma adequada.

Os acordos pós-guerra do final da década de 1940, fizeram com que a fabricação e a exportação do excedente se tornassem uma necessidade econômica para Alemanha, que estava dividida. Essa realidade não mudou quando as remanescentes partes do leste da Alemanha se uniram novamente com a parte ocidental do país, em 1990.  A fundação da CEE foi benéfica para o país, isso porque a Alemanha passou a ter mercados abertos aos excessos de sua produção, garantindo as exportações do país.

Alemanha tornou-se um co-fundador da União Europeia (1993), introduziu a moeda euro (2002), e assinou o Tratado de Lisboa em 2007 (foto).

As conquistas econômicas da Alemanha são impressionantes, se considerarmos o ano de 1945 como o ponto inicial, já que o país inteiro estava em ruínas e sob ocupação estrangeira. Além disso, milhões de cidadãos do Leste foram deslocados de suas casas, em uma enorme expulsão da população. Estes cidadãos eram necessários na parte oeste do país, que tinha sido em grande parte destruída.

Além disso, haveria uma demanda por reparações. Nas zonas ocidentais do país estes seriam em grande parte abandonados na década de 1950. Na parte oriental, a União Soviética simplesmente desmantelou e removeu a infraestrutura, como espólios de guerra. Dentro de um curto espaço de tempo as porções ocidentais do país seriam transformadas, de inimigos a aliados, como um contrapeso ao crescente poder e influência da União Soviética.

O renascimento econômico da Alemanha Ocidental, a República Federal, ficou conhecida como o Wirtschaftswunder (milagre econômico) da década de 1950 e 1960. Ele permitiu que a Alemanha se tornasse rapidamente na maior economia da CEE, que foi criada em 1957. As exportações alemãs cresceram exponencialmente ao longo dos anos seguintes. Já nos anos 80, a Alemanha chegou algumas vezes a disputar com os Estados Unidos o título de maior exportador do mundo.

A queda do Muro de Berlim em 1989, com o Portão de Brandemburgo no fundo.

A assimilação da Alemanha Oriental na década de 1990, após a euforia inicial, foi de certa forma cara, com mais de $1 trilhão de dólares (Dólar dos Estados Unidos) sendo gastos na primeira década. Mesmo assim ainda valeu a pena, pois a maior economia permitiu que a Alemanha se tronasse o líder econômico absoluto da Europa. O potencial para crescimento é ainda grande, já que os cinco novos estados, que outrora compreendiam a Alemanha Oriental, estão começando a chegar ao mesmo nível de seus homólogos ocidentais.

Atualmente, a Alemanha possui a quarta maior economia do mundo. Mensurada em $3,852 trilhões de dólares no início de 2015, ela está bem acima da economia da França, com apenas $2,892 trilhões de dólares. Em outra palavras, a economia alemã é um terço maior do que a francesa.

A economia alemã continua fortemente orientada para a exportação, sendo que elas representam mais de um terço da produção nacional. A exportação de bens de alto valor agregado tem sido o principal motor do crescimento econômico, no final do século 20 e início do século 21. O país tornou-se claramente o maior exportador do mundo, começando em 1992, e passando os Estados Unidos. Alemanha só perdeu esse título em 2009, quando foi superada pela China.

No entanto, se formos comparar a população e o tamanho dessas três nações, a produtividade alemã se destaca. Os Estados Unidos conta uma população de 320 milhões de pessoas e a China com 1,4 bilhão. Os Estados Unidos têm uma área geográfica de 3.537.500 milhas quadradas (9.161.966 km2) e China a 3.705.407 milhas quadradas (9.596.961 km2).

A união alemã foi estabelecida no dia 03 de outubro de 1990. Desde 1999, o edifício do Reichstag, em Berlim, tem sido o ponto de encontro do Bundestag, o parlamento alemão.

Os enormes superávits gerados pela economia alemã, ano após ano, fez com que o país se torna-se imensamente rico. As reservas cambiais acumuladas chegam a 168.299,08 milhões de euros ou, $184,624 bilhões de dólares. Os Estados Unidos, em comparação, tem $131.129 milhões em reserva.

Em contraste, as reservas de ouro alemãs têm-se mantido estáveis em 3.383,41 toneladas. É o segundo maior de cache no mundo, de acordo com estatísticas oficiais, embora a China é suspeita de ter reservas muito maiores do que atualmente reivindicado.

Inflação alemã permanece moderada, a uma taxa anual de 0,02% e, o desemprego atualmente está em 4,70%, o que representa uma baixa de 34 anos. Mês após mês, ano após ano, o superávit comercial continua a aumentar. O país tem um superávit regular desde 1952. Tudo começou com as exportações de carros e maquinário industrial nos primeiros anos, logo ampliando o leque com produtos químicos, ferramentas, equipamentos eletrônicos, metais e produtos farmacêuticos.

Hoje, a média dos excedentes ultrapassa os 20 bilhões de Euros ($22 bilhões de dólares), mensalmente. Em janeiro deste ano, o total foi de 15,9 bilhões de Euros. Em fevereiro, o número havia subido para 19,2 bilhões de Euros. Até março, os excedentes aumentaram ainda mais, para 23 bilhões de euros, diminuindo ligeiramente para 22,1 bilhões de euros em abril. Em maio, caiu um pouco mais, para 19,6 bilhões de euros, mas ainda acima dos 17,5 bilhões de euros do ano anterior.

Alemanha mantém uma inovadora indústria automotiva, e é o segundo maior exportador mundial de produtos acabados.

Estes enormes excedentes deram aos alemães um superávit em conta corrente igual a 7,60% do PIB (Produto Interno Bruto). Na verdade, isso é uma violação das regras da Comunidade Europeia, que estipula o máximo sendo não mais do que 6%. No entanto, os alemães continuam a superar essa taxa regularmente. Além de uma questão econômica, isso já se tornou um problema político. Isso tem causado críticas ao governo alemão por parte dos parceiros comerciais do país.

Existem muitos líderes políticos ao redor do mundo que se ressentem dos enormes superávits comerciais alemães. Na opinião deles, a Alemanha poderia fazer muito mais para estimular as economias de outros países, aumentando as importações e reduzindo as suas exportações.

De acordo com as regras da CEE, as nações membros não devem exceder um déficit orçamentário nacional que exceda 3% do PIB. Os alemães foram ainda mais longe, consagrando níveis mais baixos de dívida em sua constituição e, trabalhando constantemente em direção a um saldo orçamental primário. Em 2015, o país finalmente conseguiu anunciar o primeiro orçamento equilibrado desde 1969. Na verdade, o país já havia alcançado o status no final de 2014, como resultado de menores taxas de juros para dívidas e as fortes receitas fiscais.

Angela Merkel, Chanceler desde 2005

A Alemanha tem resistido os anseios dos parceiros europeus, instituições internacionais e nações como os Estados Unidos, que têm aconselhado os alemães a gastar mais em crescimento, promovendo o investimento público. Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, já está no cargo há 10 anos, depois de vencer três eleições consecutivas. Ela fez do saldo orçamental nacional a principal meta de sua administração.

A acumulação de dívida pública, como consequência da obtenção do balanço orçamental anual, vai desacelerar ainda mais agora. A taxa de endividamento, que está atualmente em 69,5% do PIB, em breve irá diminuir já que o país está começando a pagar suas dívidas. Tão recente quanto 2010, a taxa era de 80%. Os Estados Unidos, em comparação, permitiu que a dívida crescesse para 105% do PIB. Agora, muitos estão esperando que os alemães reduzam os impostos para estimular o crescimento, ou, que invistam mais em obras de infraestrutura. No entanto, muitos políticos da coalizão conservadora governante, estão promovendo a ideia de pagar a dívida soberana, como sendo o próximo objetivo econômico.

Frankfurt é um importante centro financeiro na Europa e onde a sede do BCE está localizada.

Esta força econômica e financeira, deu aos alemães uma grande voz nos assuntos da Europa. Não é por acaso que o BCE (Banco Central Europeu) está localizado na capital financeira alemã, Frankfurt. São os alemães que muitas vezes garantem que as nações membros da CEE segam as regras e regulamentos financeiros que foram introduzidos por acordos anteriores.

Somente a Alemanha, como o principal membro da CEE, tem os recursos necessários para ajudar os outros países da Zona do Euro, alguns dos quais se encontram em circunstâncias fiscais terríveis. Embora o BCE possa agir independente da Alemanha, a palavra do país pesa muito nessa instituição. São os alemães que fornecem os recursos financeiros necessitados por muitas das instituições da CEE e, em especial, a Zona do Euro.

Catedral de Colônia

São os alemães que irão decidir o eventual destino da Grécia, uma vez que este país está agora essencialmente falido e permanecerá assim por algum tempo. Este será o caso para qualquer nação pertencente a zona da moeda comum, que caia em uma situação financeira difícil. Os alemães foram fundamentais nas negociações da dívida com Chipre, Irlanda, Portugal e Espanha. Eles também continuarão muito envolvidos com as atuais dificuldades pelas quais a Itália está passando atualmente.

É mais vantajoso para a Alemanha manter as nações membros da CEE, em particular os da Zona do Euro, em boa situação econômica e financeira. Estes países são os principais destinos das exportações alemãs. É por isso que a Alemanha decidiu se tornar o banqueiro da Europa; afim de proteger os mercados que são os maiores destinos das exportações alemãs. Isso também explica como a economia alemã se tornou o pivô da estabilidade, crescimento e prosperidade europeias.

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