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A guerra cambial se agrava à medida que a China desvaloriza o Yuan

Esta semana vimos uma escalada na guerra cambial global, quando a China decidiu iniciar uma grande desvalorização. Como resultado, o yuan chinês teve uma queda de 1,8% em relação ao dólar norte-americano e de 2,2% em relação ao Euro, na terça-feira, dia 11 de agosto. Isso foi a maior queda em um único dia para a moeda em décadas. Na quarta-feira, as autoridades chinesas permitiram que o yuan caísse ainda mais, trazendo a depreciação total para cerca de 4% em relação ao dólar. Um terceiro corte ocorreu na quinta-feira. As consequências desta ação irão reverberar não somente na China, mas por toda a economia mundial.

À medida que a economia global continua a desacelerar, tal fato tem colocado pressão nas principais nações do mundo, fazendo com que elas adotassem políticas com fim de retomar o crescimento. Como sempre, os banqueiros e os políticos preferem adotar um plano de ação que não seja muito controverso entre o eleitorado. Portanto, a política monetária é a ferramenta favorita quando se fala em estimular mais o crescimento. Como resultado, de um ano para cá o euro caiu cerca de 18% em relação ao dólar dos Estados Unidos (USD) e perto de 22% em relação ao iene.

A China escolheu desvalorização como uma medida para manter o crescimento e segurar os níveis de desemprego, que aumentou rapidamente durante o ano passado. O governo chinês está determinado a manter a taxa de expansão da economia em pelo menos 7%. A sobrevivência do Partido Comunista, que atualmente está no topo da política chinesa, estará em questão caso ele não possa mais garantir empregos e prosperidade econômica para a segunda maior economia do mundo.

Bolsa de valores de Xangai

A taxa de crescimento, conforme relatado pelo governo chinês, conseguiu um nível de crescimento de 7% para o primeiro semestre de 2015. Todavia, vários analistas suspeitam de que o governo chinês tenha inflado uma série de estatísticas, a fim de manter o objetivo declarado. O que está cada vez mais claro é que a economia deveria desacelerar ainda mais durante o resto deste ano, dada a perda de quase 30% no mercado acionário chinês e a diminuição da procura para as exportações chinesas.

Um objetivo secundário dos líderes chineses é fazer com que o yuan fique conhecido internacionalmente como o renminbi, para se tornar um grande moeda mundial. Isso pode ser facilitado caso os chineses sejam autorizados a tornar o seu dinheiro uma moeda de reserva mundial, ao lado dos dólar, euro, libra esterlina, franco suíço, e iene japonês, bem como os dólares australiano e canadense. O FMI (Fundo Monetário Internacional) deve tomar essa decisão até meados de outubro deste ano, mas, é bem provável que esta decisão seja adiada, fazendo com que o chineses fiquem esperando por mais um tempo, como já foi feito antes.

Em 15 de outubro de 2013, o chanceler britânico do Tesouro, George Osborne, anunciou que a libra esterlina e renminbi serão negociadas diretamente em Londres e Xangai.

As ações tomadas pelos chineses esta semana representam também um passo no sentido de tornar sua moeda plenamente conversível. O banco central da China (PBOC), tradicionalmente tem mantido o yuan sobrevalorizado, através da manutenção de uma escala apertada na banda de negociação permitida. Os chineses decidiram que o crescimento da economia é mais importante do que manter uma taxa artificialmente mais elevada para a sua moeda. Ao afrouxar um pouco o controle sobre o valor do yuan, os chineses também estão tentando convencer o FMI a permitir que o yuan atinja o status de moeda de reserva em um futuro próximo.

A China está entrando em um período que promete ser o de mais lento crescimento econômico em 25 anos. O modelo anterior para a expansão da economia foi o de investimento pesado em infra-estrutura interna e uma expansão contínua das exportações de baixo custo. Como resultado os produtos chineses têm inundado os mercados mundiais por anos. Além de causar mudanças nos padrões do comércio mundial, isso também criou uma enorme demanda por commodities e matérias-primas para manter as fábricas chinesas funcionando a todo o vapor.

Fábrica perto do rio Yangtze

Os salários na China têm aumentado dramaticamente ao longo dos últimos anos, diminuindo muito a vantagem competitiva que a China já teve na fabricação de produtos. As exportações do mês passado caíram 8,3%, em comparação ao mesmo período do ano anterior. Além disso, há vários anos muitos países emergentes estão tentando imitar o modelo chinês.

A China tornou-se vítima do seu próprio sucesso. Oficiais do governo chinês estão ficando desesperados, tentando fornecer um novo estímulo para o crescimento. Há grande necessidade de se encontrar novos mercados, a fim de ajudar a aliviar o excesso de capacidade industrial que têm pressionado ambos os preços e os lucros no país.

O mercado imobiliário na China já está saturado, com muitos imóveis parados, e a especulação tem impulsionado os preços muito além do que é prático. O mercado de ações, após um espetacular crescimento de 124% em um ano, atingiu o seu pico em junho e agora está abaixo de 30%. Grande parte deste crescimento foi financiado através de margens expandidas (dívida), flexibilização da política monetária e, na esperança de mais reestruturação econômica. O governo chinês, que já está muito endividado, não pode mais manter os enormes gastos com estímulos sem criar uma distorção financeira ainda maior na economia chinesa.

Esta é a forma como o governo chinês chegou à conclusão de que a desvalorização do yuan é uma das opções menos dolorosas. Sem dúvida essa desvalorização irá causar um aumento da inflação na economia chinesa e, irá criar um fardo para as empresas chinesas que têm dívidas em dólares americanos. No entanto, o governo chinês determinou que, por hora, os benefícios superam os riscos.

O ministro das Finanças brasileiro, Guido Mantega, que fez manchetes quando ele avisou sobre uma guerra cambial, em setembro de 2010.

A desvalorização da moeda vai ajudar a China recuperar a vantagem competitiva das suas exportações, que vem sendo perdida para seus vizinhos asiáticos e também países em outras partes do mundo. Claro que, fazendo isso, a China possa acabar forçando os seus concorrentes a fazerem o mesmo. Os governos desses outros países podem muito bem chegar à conclusão de que eles também não tem outra escolha, senão fazer o mesmo o que a China fez e desvalorizar suas moedas. Desse modo, a guerra de moedas irá se intensificar. Cada nação terá que decidir se a desvalorização de sua moeda irá tornar os seus produtos mais competitivos no mercado internacional ou não.

A desvalorização da moeda chinesa foi a maior em duas décadas, em relação ao dólar norte-americano e, de imediato, fez om que as exportações americanas e europeias se tornassem menos competitivas nos mercados mundiais. Além do clamor político que a ação tem causado, ela também dificulta os esforços americanos nas negociações comerciais da Parceria Trans-Pacífico (TPP). As negociações comerciais bilaterais entre os Estados Unidos e a China estão totalmente paradas.

Outro fator que não ajuda é a aprovação por parte do FMI da decisão chinesa, que acha que o yuan chinês está sobrevalorizado no momento. Para esta instituição, a desvalorização do yuan é um desenvolvimento positivo. Isso permite com que a moeda chinesa reflita o que está ocorrendo atualmente na economia mundial. É importante notar que o yuan valorizou cerca de 30% em relação as principais moedas do mundo.

1 RMB para USD, desde 1981

A China já reduziu as taxas de juros quatro vezes no último ano e promulgou outras práticas de flexibilização quantitativa, em um esforço para promover o crescimento da economia doméstica. A desvalorização foi o próximo passo lógico da política monetária, já que outros meios para estimulação da economia se tornaram muito arriscados.

No entanto, isso acarretará consequências em outros locais. Os Estados Unidos, por exemplo, vai perceber que um aumento das taxas de juro na atual conjuntura será mais difícil. O dólar forte vai fazer com que fique mais difícil para os fabricantes e exportadores americanos vender seus produtos, tanto no mercado interno quanto em outros países. Os produtos americanos vão ficar cada vez mais caros. O Fed, Federal Reserve, pode achar que o aumento das taxas de juros irá prejudicar o crescimento dos Estados Unidos e, sendo assim, irá postergar esse aumento mais uma vez.

O Japão e a Coreia do Sul podem ser forçados a prosseguir com mais uma desvalorização de suas próprias moedas. As moedas da Indonésia e da Malásia já estão em seus níveis mais baixos em 17 anos. A Indonésia viu sua moeda desvalorizar cerca de 60% e a Malásia 33%, apenas nos últimos quatro anos. Em 2015, as moedas desses dois países desvalorizaram em 8,4% e 9,8%, respectivamente. O baht tailandês visto um declínio de 6,4% este ano e, o peso filipino, 2,2%.

Este gráfico exibe a inflação dos preços ao consumidor na China.

Estes desenvolvimentos sinalizam os tomadores de decisão nesta região do mundo, assim como em outras, estão atualmente à procura de quaisquer ferramentas que permitam retomar um crescimento mais sustentável. Embora os chineses insistam que a desvalorização do yuan foi muita mais moderada, em relação a maioria dos outros países, ela tem deixado os investidores preocupados, devido ao tamanho da economia chinesa e o seu impacto sobre a economia mundial.

A real preocupação é que o governo chinês vai continuar a permitir que o yuan a caia ainda mais em valor. Isso iria praticamente forçar as outras nações a tomar medidas similares. A desvalorização de moedas ao redor do mundo, então, iria continuar, com resultados desastrosos. Uma coisa é certa, o atual governo chinês valoriza a estabilidade acima de tudo. Eles irão fazer tudo o que podem para garantir que a economia chinesa continue crescendo, independentemente das consequências.

O FMI já rebaixou o crescimento global projetado para este ano de 3,5% para 3,3%. Essa taxa pode ser reduzida ainda mais, à luz dos mais recentes desenvolvimentos econômicos. O crescimento previsto para 2016 permanece em 3,8%, mas tal número está parecendo cada vez mais improvável, dados os atuais eventos.

A questão de como a China poderá crescer a uma taxa duas vezes mais rápida que o resto do mundo, vai se tornar um problema cada vez maior. Isto não é apenas um problema para o governo chinês. A desaceleração do crescimento econômico não se limita a apenas ao Nordeste e ao Sudeste Asiático. É um fenômeno que está ocorrendo em outras partes da Ásia, África, Europa, América Latina e América do Norte também.

Distribuição das exportações chinesas

Bancos centrais de todo o mundo têm vindo a operar em um acordo não-oficial. A desvalorização, quando ocorre, é permitida desde que ele não esteja sendo feita diretamente e intencionalmente pelo governo em questão. Se é um esforço para ganhar vantagem no comércio mundial, torna-se uma questão grave. É por isso que as ações do banco central da China tem causado tal perturbação.

Os chineses, em resposta, apontam para as ações tomadas pela Zona do Euro, durante o terceiro trimestre de 2014. As ações tomadas pelo BCE (Banco Central Europeu) não permitiram que o euro desvalorizasse em mais de 20% em relação ao dólar americano, em um ano. O próprio Estados Unidos já se envolveu em políticas para enfraquecer o dólar, após o pânico financeiro de 2008.

A China e outras grandes economias em desenvolvimento, em PIB per capita em paridade de poder de compra, 1990-2013. O rápido crescimento econômico da China (vermelho) é facilmente perceptível.

Se a China continuar com os esforços para desvalorizar a moeda, as primeiras nações a sentir o maior impacto serão as nações da Ásia, que exportam grandes quantidades de bens para a China. Muitas dessas nações também competem com a China nos mercados internacionais.

As moedas asiáticas também já caíram com a notícia, uma vez que isso está sendo visto como uma conclusão precipitada de que uma maior flexibilização monetária irá ocorrer nesses países. A fim de manter suas atuais vantagens competitivas, é quase certo que esses países irão tomar medidas preventivas.

O lento crescimento já foi um problema constante no ano passado, com o quase colapso nos preços das commodities. Isto é verdadeiro, em especial, nos mercados emergentes, mesmo antes da última jogada da China. A procura interna nestas economias cresceu a menos de 2% no primeiro semestre de 2015. Trata-se de uma redução de 50% em relação ao ano passado e, é menor do que a atual taxa no mundo desenvolvido.

O medo de muitos investidores e banqueiros é um imprevisto movimento de capital e instabilidade do mercado, causados pelas desvalorizações forçadas. Seria uma hipocrisia culpar somente a China por esta situação. Eles foram apenas os últimos a tomar esse tipo de decisão. É o tamanho da economia chinesa e o papel do governo na formulação de políticas econômicas e monetárias, que fazem com que essa situação seja mais crítica. Isto é além do enorme impacto que a China tem no comércio global e as enormes reservas cambiais que foram acumuladas ao longo dos anos. O montante total está na casa dos trilhões.

Se foi declarada ou não, uma guerra cambial de baixo nível foi iniciada nos últimos anos. Isso é apenas mais uma frente que está surgindo, que terá de ser lidada com de uma forma ou de outra. Historicamente o mundo já passou por situação parecida antes, como os acontecimentos recentes lembram alguns economistas, sobre o movimento protecionista da década de 1930 e os resultados catastróficos que isso teve no comércio internacional e na economia mundial. Só podemos esperar que a história não se repita, com uma grande guerra cambial entre vários países, desenvolvidos e emergentes. Esta semana vimos uma escalada na batalha para manter uma aparência de ordem nas finanças globais. As guerras cambiais estão se aquecendo.

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