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A próxima rodada de flexibilização quantitativa nos Estados Unidos está chegando

À medida que a controvérsia sobre o aumento das taxas de juros domina cada vez mais manchetes e os investidores se preocupam com o impacto que isso tem sobre os mercados, pouca atenção tem sido dada a rápida desaceleração do crescimento global. No mundo desenvolvido apenas dois países estão fazendo planos para aumentar as taxas de juros em 2015. Tanto os Estados Unidos quanto o Reino Unido acreditam que é hora de se afastar das baixas taxas históricas que criaram inúmeras distorções em suas economias internas. Embora ambos os países possam usar o recente crescimento de suas economias como um motivo para aumentar o custo dos empréstimos, a atual tendência internacional de desvalorização das moedas provavelmente irá inviabilizar esses esforços.

As recentes oscilações nos mercados globais e a queda das ações chinesas em 50% desde meados de junho, acabaram por desencorajar os investidores cada vez mais cautelosos. Em pouco mais de dois meses, o equivalente a $5 trilhões de dólares (dólares norte-americanos) desapareceu do mercado de ações chinês. Todos os ganhos para o ano foram eliminados.

Economia chinesa está sofrendo uma grande desaceleração.

O pânico que começou na China se espalhou para os Estados Unidos e, em um período de seis dias, a riqueza de $2 trilhões de dólares desapareceu com a queda das ações. Somente a S&P americana perdeu $900 bilhões de dólares em três dias. A maior queda de pontos em um dia na história americana ocorreu em 24 de agosto e, embora o mercado de ações americano tenha se recuperado no final da semana com o maior aumento em dois dias da história, a crescente volatilidade está abalando a complacência de muitos financiadores.

No lado positivo, os Estados Unidos podem apontar para o aumento de 3,7% no PIB (Produto Interno Bruto) no segundo trimestre. O Departamento de Comércio americano esperava uma taxa mais baixa, de 2,3%. O aumento dos investimentos empresariais e dos gastos dos consumidores ajudou a impulsionar a economia para uma maior taxa de crescimento. No entanto, isto ocorreu após míseros 0,06% de expansão econômica durante o primeiro trimestre. É importante notar que muitos analistas ainda estão céticos sobre as mais recentes estatísticas do segundo trimestre.

Os gastos dos consumidores aumentaram 3,1% de abril a junho, ante uma taxa muito mais baixa no início do ano, de 1,8%. Este setor é o principal motor da economia dos Estados Unidos. O investimento das empresas aumentou 3,2% no segundo trimestre, o nível mais alto em um ano para o mês de julho. O nível de investimentos aumentou principalmente devido ao salto de 2,4% nos lucros das empresas. Novamente, isto comparado ao declínio de 5,8% deste mesmo indicador para o primeiro trimestre.

Todavia, as empresas ficarão muito menos inclinadas a aumentar as suas despesas de capital caso a economia não crescer tão rapidamente quanto previsto. O crescimento no terceiro trimestre já está sendo projetado em um ritmo bem mais lento, de 2,8% e, isso foi antes das últimas oscilações dos mercados de ações.

A inflação aumentou para 2,2% durante o verão do hemisfério norte (junho a agosto), mas é provável que irá diminuir à medida que os menores preços do petróleo tenham efeito sobre a economia americana. É muito provável que uma maior aceleração do crescimento seja impedida pela menor produtividade, pouco aumento salarial e baixa geração de novos postos de trabalho.

Chicago Board of Trade Futures Market

Outro entrave ao crescimento para os Estados Unidos é a atual alta do dólar norte americano. A valorização da moeda está fazendo com que as exportações americanas sejam menos competitivas nos mercados mundiais. Os produtos do Estados Unidos, quando cotados em dólar, são muito caros. Os preços de muitos bens e serviços ainda estão caindo em muitas áreas do mundo, principalmente por causa do colapso dos preços das commodities.

O custo das importações para os Estados Unidos vão continuar a cair neste ambiente. Isso acaba dificultando a geração de novos postos de trabalho e quaisquer possíveis aumentos de preços dentro do país. Os produtores domésticos terão cada vez mais dificuldades em aumentar os preços nesse mercado, independentemente de qualquer aumento dos custos de produção. Você não pode repassar aos consumidores os aumentos dos custos de produção quando o mercado está sendo inundado por importados mais baratos. Isso vai acabar impossibilitando quaisquer aumentos nos lucros de empresas de vários setores.

Prédio do Federal Reserve Bank, EUA.

Os investidores ainda estão divididos sobre se o Federal Reserve irá aumentar ou não as taxas de juros no final deste mês. O Shanghai Composite teve outra queda no último pregão do mês. Ela ficou com uma baixa de 12,5%, somente no mês de agosto. O governo local finalmente abandonou a estratégia de comprar em larga escala as ações da bolsa, como forma de apoiar o mercado. Isso explica, em parte, a recente grande queda dos valores das ações na China, já que os investidores de lá continuam a perder confiança.

O governo chinês está tentando identificar os piores excessos do mercado e está usando jornalistas e traders como bodes expiatórios. Eles foram atrás de mais de 200 indivíduos que foram acusados de atividades que ajudam a desestabilizar os mercados domésticos. Na realidade, isso apenas nos mostra o crescente desespero das autoridades chinesas em manter algum controle sobre o mercado e colocar a culpa da tendência de quedas nos outros, já que eles não podem mais evitar as quedas.

Um número crescente de analistas no Ocidente já não acreditam mais nas estatísticas chinesas sobre o crescimento da economia do país. Mesmo a Goldman Sachs já reduziu as expectativas de crescimento em uma quantia considerável, para os próximos três anos. A casa de investimento prevê que expansão econômica da China irá desacelerar para 6,4% em 2016, 6,1% em 2017 e 5,8% em 2018. As autoridades chinesas terão muita sorte se esses prognósticos se concretizarem. Na verdade, o crescimento da China será de menos da metade do que está previsto, e, é possível que a economia entre até mesmo numa recessão no próximo ano.

No Japão, a Nikkei viu a maior queda mensal no valor das ações no último mês, desde o início de 2014. A queda de 8,2% foi provocada por uma redução na produção industrial e uma demanda mais fraca por produtos japoneses no exterior. Como a terceira maior economia do mundo, a atual fraca condição da economia do Japão coloca mais um empecilho nas perspectivas de crescimento mundial.

Berlim, capital da Alemanha.

Na Europa, o banco central está encontrando cada vez mais dificuldades na luta contra os efeitos da deflação, já que os preços e os salários continuam estagnados. O BCE (Banco Central Europeu) está tentando reviver o aumento dos preços para o consumidor, mas a atual taxa de 1% de inflação é metade do objetivo declarado. A baixa taxa significa que a flexibilização quantitativa terá de continuar num futuro próximo. O BCE vai dar andamento ao plano de comprar anualmente cerca de 1 trilhão de euros, com o programa de compra de ativos. Isto é equivalente a cerca de $1,12 trilhão de dólares, no câmbio de hoje.

Por sua vez, as ações européias sofreram com a pior depreciação para o mês de agosto em quatro anos. Mesmo o motor de crescimento que é a economia alemã, já não pode mais sustentar o mercado europeu face à estagnação do crescimento e dos lucros.

No mundo emergente, o equivalente a $1 trilhão de dólares deixou os países na busca de melhores oportunidades de investimento, em países mais avançados, isso somente no ano passado. Isto é o dobro da taxa de retirada que ocorreu durante a crise financeira de 2008 e 2009. Estes países estão passando por muitas dificuldades com suas economias, devido principalmente ao colapso nos preços das commodities nos mercados mundiais. Essa queda das commodities foi provocada pela diminuição da demanda chinesa, que era insaciável até pouco tempo. A economia chinesa sozinha foi responsável por quase 40% da demanda mundial de commodities.

As economias da América Latina, bem como partes da África e da Ásia, que são excessivamente dependentes da exportação de commodities, terão que confrontar um crescimento lento em 2016 e além, sem contar os inúmeros problemas associados a isso. Esses governos não podem desvalorizar as suas moedas a fim de ficarem mais competitivos no mercado internacional, visto que elas já estão bem desvalorizadas. Algumas destas moedas, por exemplo, da Indonésia e da Malásia, estão em seus níveis mais baixos desde o pânico financeiro do final dos anos 1990 no sudeste da Ásia.

“Sede” do FMI em Washington, D.C., EUA

O FMI (Fundo Monetário Internacional) já reduziu as expectativas de crescimento do PIB mundial para 2015, de 3,5% para 3,3%. A última diminuição foi feita em janeiro. Devemos esperar por mais uma revisão, para baixo, no final deste ano. A taxa de 3,8% estimada para o próximo ano pela instituição está cada vez menos provável, devido as atuais circunstâncias.

O que os políticos dos Estados Unidos podem fazer neste mercado global cada vez mais instável e sisudo? A oportunidade de elevar as taxas de juros à níveis que o aumento teria qualquer efeito já veio e se foi. A atual taxa de 0,25%, já está em vigor desde a última crise financeira e recessão resultante, que ocorreram em 2008 e 2009. Neste momento, pequenos aumentos teriam um efeito negligenciável além dos efeitos psicológicos que taxas mais altas teriam sobre a economia no geral.

Qualquer aumento por parte do Federal Reserve neste momento será revertido em breve, quando o mercado de ações despencar no final deste ano e a economia americana entrar em recessão em 2016. Para alguns analistas financeiros, esse seria o real motivo para aumentar as taxas de juros agora, para que elas possam ser reduzidas novamente quando a economia estiver em uma contração prolongada.

Taxas mais elevadas de juros irão fortalecer o dólar dos Estados Unidos ainda mais. Isto, obviamente, vai fazer com que as exportações americanas fiquem proibitivamente mais caras, em um mercado mundial muito competitivo e que já está sofrendo com a diminuição da procura.

É bem provável que o Federal Reserve (Fed) realize pequenos aumentos este ano, isso se fizer qualquer coisa, colocando como objetivo novos aumentos em 2016. Como as condições econômicas só estão piorando, estes planos não são susceptíveis de se concretizarem.

Os políticos nos Estados Unidos estão atualmente em uma posição insustentável. A política monetária tem sido a principal ferramenta para estimular o crescimento da economia doméstica, já que o programa de estímulos promulgado pela Administração Obama em 2009 fracassou. Como as taxas de juros já estão próximas a zero, a única outra opção disponível quando a economia começa a oscilar em recessão será um retorno à flexibilização quantitativa.

A primeira rodada de flexibilização quantitativa, conhecida como QE1 pelos Estados Unidos, foi em resposta à crise financeira global. O sistema estava à beira de um colapso, de acordo com a estimativa de banqueiros e políticos da época. Isto levou ao QE2 em 2010, que foi empregado na esperança de retomar o crescimento da economia americana. O fracasso em dar um empurrão na atividade econômica do país levou o Fed a iniciar com o QE3. Esta foi a receita para lidar com uma economia estagnada, de baixa inflação e crescimento salarial zero.

A compra maciça de títulos do tesouro do governo e títulos lastreados por hipotecas, em mais de $1 trilhão de dólares por ano, acabou resultando em um aumento na avaliação de ativos e do mercado de ações. Isso levou o Fed a diminuir e eventualmente acabar com o QE3, no último trimestre de 2014.

Para muitos especialistas financeiros, as políticas do Fed, que é o equivalente a um banco central nos Estados Unidos, forneceram o estímulo monetário necessário para mover a economia de volta em direção ao crescimento. No entanto, também definiu a precedência de que o Fed, além de proteger a moeda contra os perigos da inflação, agora tinha uma nova função. Essa nova função é de proporcionar o crescimento da economia, quando o governo e o setor privado falharem nessa empreitada.

A expectativa de muitos americanos é que na próxima crise, que chegará em breve, o Fed ficará responsável por fornecer as ferramentas necessárias para corrigir a economia o mais rápido possível. Quando o mercado de ações sofrer uma queda no final deste ano e, o ciclo de negócios levar a economia dos Estados Unidos a uma recessão, será a obrigação do Fed proporcionar o estímulo monetário necessário a fim de aliviar os efeito da retração.

Apesar de que a próxima recessão possa ser causada por fatores fora dos Estados Unidos, que é o que vai ser diferente desta vez, haverá uma demanda generalizada por ações do Fed. Provavelmente ele irá ceder à pressão política e terá um papel mais ativo na luta para reverter uma retração nos Estados Unidos e também na economia global. Diga olá a 4ª rodada de flexibilização quantitativa.

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