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A economia do Brasil: onde está o crescimento?

São Paulo

O início do século 21 estava prometendo muito para o Brasil. Seria a vez do país deixar de ser um mercado emergente para se tornar uma nação desenvolvida de primeiro mundo, isso dentro das primeiras duas décadas. O crescimento econômico acelerou de 3% em 2002, para 6% em 2007. Após uma breve interrupção, como resultado da crise financeira de 2008 e resultante crise econômica em 2009, o crescimento voltou a aumentar em 2010, se aproximando de 8%. O país estava recebendo grandes doses de investimento estrangeiro. O boom das commodities estava prestes a trazer uma prosperidade geral, nunca vista antes neste gigante continental.

Nos últimos 15 anos o Brasil cresceu muito, a ponto de se tornar a 8ª maior economia em PIB nominal (Produto Interno Bruto). Em PPC (Paridade de Poder de Compra) o país está atualmente em sétima lugar. A economia brasileira se tornou a maior da América Latina e a segundo maior no Hemisfério Ocidental, depois dos Estados Unidos. A partir da década que durou de 2002 a 2012, a economia doméstica cresceu a uma média de 5%. Ele foi um dos principais mercados do mundo que mais rapidamente cresceu.

No ano de 2012, o Brasil tornou a 6a maior economia no mundo, ultrapassando o Reino Unido. Nesse mesmo ano, a Forbes identificou o país como tendo o quinto maior número de bilionários do mundo. Este número era muito maior do que de qualquer outro país da América Latina e excedeu o número de bilionários do Japão e do Reino Unido.

Em 2009, o Fórum Econômico Mundial considerou o Brasil como um líder na evolução ascendente da competitividade. O país havia superado outros oito países, finalmente superando a Rússia pela primeira vez. Os brasileiros foram até mesmo capazes de diminuir a diferença com a China e a Índia.

O governo do Brasil tomou medidas importantes na década de 1990 no sentido de alcançar o equilíbrio fiscal, bem como a abertura do país ao investimento estrangeiro. Os esforços para liberalizar a economia durante este período, permitiu o enorme crescimento subsequente no desenvolvimento do setor privado.

Jato RJ145 fabricado pela Embraer

O maior componente do PIB brasileiro é o setor de serviços, em 67%, que emprega 71% da população ativa, que é de cerca de 107 milhões de pessoas. A parte industrial da economia compreende 27% do total e emprega 19% da força de trabalho do país. Embora 10% dos brasileiros estejam envolvidos na agricultura, o número total de postos de trabalho gerado por este setor é de apenas 5%.

As principais indústrias do país consistem em têxteis, vestuário, produtos químicos, cimento, madeira, minério de ferro, estanho, petróleo, aço, aviões, veículos a motor e peças acessórias, máquinas e equipamentos relacionados. Estes itens produzidos pelo Brasil eram muitas das coisas de que a China precisava para alimentar sua rápida expansão, durante as últimas décadas. O comércio com a China subiu de o equivalente a $2 bilhões (Dólar dos Estados Unidos) em 2000, para $83 bilhões de dólares em 2013.

Dos cerca de $1 trilhão de dólares que os investidores estrangeiros haviam despejado no mundo emergente até 2011, quando o boom das commodities estava chegando ao seu pico, o Brasil foi capaz de capturar uma parcela considerável. Muitos investidores trabalharam com os mercados brasileiro, porque eles eram muito mais transparentes do que os da China. Era uma maneira de investir no crescimento econômico chinês com segurança.

O Brasil tem uma população de mais de 204 milhões de pessoas e é abençoado com recursos naturais abundantes. O país tornou-se um dos dez maiores mercados do mundo. Isto é um dado significante, especialmente quando se considera que a economia paralela, que é a parte não tributada, atualmente se aproxima de 40% do total.

Energia renovável em Fortaleza

O PIB nominal do Brasil está estimado em $1,903 trilhão de dólares. O PIB em PPC está estimado entre $2,4 trilhões e $3,59 trilhões de dólares.

Mais recentemente, o crescimento desacelerou consideravelmente e, finalmente, este ano o país caminha para uma recessão. O que aconteceu com o crescimento? Bem, uma chave para o problema é a economia paralela acima mencionada. Grande parte da atividade econômica do país ocorre extra-oficialmente, sendo resultado de uma regulamentação extenuante, tributação improdutiva e corrupção generalizada. É uma situação que se assemelha a da Itália, mas em uma escala muito maior.

Reformas econômicas estruturais tem se arrastado durante anos, mas tinha sido mascarada pelo forte crescimento devido as commodities durante a última década e meia. O quase insaciável apetite da China manteve muitos dos bens comerciais oferecidas pelo Brasil em alta demanda, e também a altos preços. O boom das commodities em toda a América Latina, mas especialmente no Brasil, permitiu que o país gastasse enormes somas em grandes projetos de infra-estrutura e bem-estar social.

À medida que o crescimento da China começou a desacelerar, a demanda por matérias-primas provenientes do Brasil entrou em um declínio correspondente. As exportações para a China caíram cerca de 20% até o momento, somente neste ano. Devido ao fato que a queda da demanda mundial por commodities está afetando toda a região, muitos dos parceiros comerciais do Brasil também estão sendo prejudicados. Isto fez com que o crescimento do comércio praticamente parasse, não somente na América do Sul, mas em quase toda a América Latina.

O Brasil logo começou a amargurar o aumento do desemprego, que rapidamente alcançou a taxa de 6,6%. A taxa oficial já ultrapassou os 8%. É claro que a taxa real é muito mais elevada, como é o caso em muitos outros países. A inflação, que tinha sido reduzida em anos mais prósperos, cresceu para uma taxa anual de 6,2%, de acordo com os números oficiais. Até o momento, a taxa para este ano tem sido de 8,2%. Ao mesmo tempo o investimento estrangeiro foi diminuindo rapidamente, sendo que a fuga de capitais já havia iniciado em 2014. Espera-se que a saída de investidores estrangeiros só aumente este ano, assim como em 2016.

O Brasil não tem controle sobre a situação da diminuição da demanda Chinesa e não pode fazer muito em relação a isso, mas a necessidade de amplas reformas, tanto políticas quanto econômicas, é real e é atualmente a única maneira do retomar o crescimento e parar com a deterioração da sua economia.

Distrito financeiro do Rio de Janeiro, uma das maiores cidades do país.

A intervenção do governo na economia, menos perceptível nos tempos mais abundantes, causou uma má alocação de capital e de mobilidade social. Isso acabou por alimentar um sentimento crescente de injustiça e insatisfação entre a classe média em ascensão, que conseguiu fazer enormes ganhos econômicos ao longo das duas últimas décadas. Muitos dos ricos já estão abandonando o barco e saindo do Brasil, realocando seus ativos e encontrando novas residências no exterior.

O quase colapso nos preços das commodities não só levou a uma redução no crescimento, mas também a um declínio semelhante em investimentos por parte do governo em infra-estrutura e serviços públicos necessários. Os brasileiros são deixados com altos impostos, juntamente com o aumento do desemprego e da inflação. A aceitação da corrupção desenfreada sob estas condições é muito menos tolerável.

É também bem improvável que se chegue a uma solução política no curto prazo. As eleições nacionais realizadas em outubro passado, deram a presidente Dilma Rousseff, por pouco, um segundo mandato. O esquerdista Partido dos Trabalhadores (PT), que ela representa, tem estado no controle do governo nos últimos 12 anos. Já houveram nos últimos anos 3 grandes protestos contra ela e a corrupção que permeia a partir da atual elite dominante. As demandas por impeachment e uma reforma política, só irão aumentar à medida que a economia brasileira continua a sua queda para o fundo do poço.

Dilma Rousseff na Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, em 2010.

A presidente Dilma Rousseff parece não ter soluções sobre como recuperar a economia, que está sofrendo com a desaceleração do crescimento e uma dívida que cresce rapidamente. Sua popularidade caiu consideravelmente, chegando a apenas 8% no índice de aprovação. Há poucas semanas o país recebeu um rebaixamento do seu rating de crédito, conseguido a duras penas, devido ao aumento das despesas do governo em face de uma recessão que se aproxima.

A dívida pública já subiu para 66% do PIB. Até que não surpreendentemente elevada quando comparada com a dos Estados Unidos, por exemplo, que está em 105%, mas o aumento rápido é preocupante. Em 2014, somente os pagamentos da dívida consumiram mais 6% da produção total do Brasil.

É bem improvável que o crescente défice orçamental vá diminuir muito no atual clima econômico e político. O programa Bolsa Família, que repassa uma quantia mensalmente para pobres do país continuará, já que o governo deseja mostrar suporte a essa classe durante este período de contração econômica. Atualmente os gostos públicos equivalem a 40,4% do PIB.

O mercado de ações brasileiro está sofrendo com muitas perdas, à medida que a recessão se aprofunda e o valor do real continua a cair. A presente crise política, com acusações de corrupção e ineptidão, só piora a situação, já que os investidores estão a perder rapidamente a confiança. Apenas alguns anos atrás o mercado de ações brasileiro era 4 vezes maior do que o do rival mais próximo, o México. A diferença entre os dois mercados, que já foi mais de $1,1 trilhão de dólares, no momento está reduzida para apenas $133 bilhões. Vários analistas preveem que a atual vantagem irá desaparecer em 2016.

Vista de Recife

O mercado de ações no Brasil caiu 22% quando comparado ao ano passado. O real brasileiro desvalorizou cerca de um terço de seu valor no mesmo período de tempo. Uma das únicas coisas boas que o Brasil tem a seu favor são os $371 bilhões de dólares em reservas cambiais detidas pelo Banco Central. No entanto, estes fundos serão insuficientes em uma crise econômica prolongada.

A estagnação da economia brasileira se aprofundou ao longo do tempo. O crescimento teve média de apenas 2,2% durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, de 2011 a 2014. Este foi um ritmo mais lento do que o da maioria dos países da América Latina. Em comparação com China e Índia, dois outros membros do grupo conhecido como BRICS, a taxa era baixíssima. De um ano para cá o crescimento desacelerou drasticamente. Para 2015 espera-se que a economia do Brasil contraia em pelo menos 2%.

O consumo das famílias registrou sua primeira queda desde que o PT tomou o poder em 2003. O défice orçamental já duplicou no ano passado para 6,75% e é provável que aumente ainda mais. Mais preocupante ainda para os investidores é que, pela primeira vez desde 1997, nenhum dinheiro foi alocado para pagar os credores. A excepcionalmente alta taxa de juros do Brasil, de 13,75%, faz com que fique muito mais caro manter a dívida. Isto é resultado da tentativa do Banco Central do Brasil de combater a inflação, que estava prestes a ficar fora de controle.

Diferentemente da maioria dos países industrializados, que estão atualmente enfrentando uma inflação baixa e, portanto, taxas de juros perto de zero, em um esforço para estimular o crescimento, o Brasil está tendo que lidar com uma situação onde os preços estão disparando. Isto está fazendo com que o governo fique cada vez mais impopular. A confiança do consumidor está caindo rapidamente, para níveis não vistos em mais de uma década.

O aumento dos salários no Brasil tem crescido mais rapidamente do que a produtividade durante a última década. Isso encorajou mais empréstimos e gastos do que a economia poderia suportar, sem um aumento da inflação. Os salários já atingiram seu pico e têm diminuído desde março deste ano. A renda disponível está diminuindo, visto que os consumidores estão sendo forçados a usar quantidades cada vez maiores de dinheiro para pagar empréstimos anteriores.

Os altos salários, juntamente com uma regulamentação excessivamente agressiva por parte do governo, uma moeda que estava forte, bem como uma infra-estrutura precária, tornaram a indústria brasileira não competitiva no mercado global. A demanda doméstica por carros, por exemplo, já sofreu uma queda de 20% somente neste ano. Pior ainda, a gigante estatal de petróleo – Petrobras, que é a maior fonte de investimentos e receita extra para o governo, está no meio de um enorme escândalo de corrupção. Estima-se que pelo menos $2 bilhões de dólares foram roubados apenas na última década. Esta situação tem claramente afetado as receitas e despesas da empresa, que pode, no final, reduzir o PIB do Brasil em gritantes 1% este ano.

P-51, uma das plataformas de petróleo da Petrobras.

A fim de não perder a muito valorizada classificação de crédito para investimento, que já foi rebaixado de Baa2 para Baa3, o governo foi forçado a cortar gastos e poupar o máximo possível. Como resultado, o Brasil está reduzindo o seguro-desemprego, ao mesmo tempo em que a taxa de desemprego está aumentando. Praticamente todos os benefícios disponibilizados pelo governo estão sendo reduzidos.

Os impostos também estão subindo, assim como as taxas sobre os combustíveis, água, eletricidade e outros serviços públicos. Claro, alguns desses aumentos irão na verdade refletir o verdadeiro custo de muitas dessas necessidades, reduzindo assim a demanda. No geral, os preços desses itens têm sido subsidiados pelo governo por muito tempo, a fim de manter a popularidade entre os eleitores.

O que pode o governo do Brasil pode fazer na atual conjuntura? Se houver qualquer tentativa de usar estímulo fiscal para mover a economia para a frente, haverá um rebaixamento quase que imediato na atual classificação de crédito. O Banco Central poderia tentar aliviar a política monetária novamente, baixando as taxas de juros. Todavia, isso iria alimentar ainda mais a inflação e enfraqueceria a moeda, que já muito desvalorizada. O real é a moeda de pior desempenho em 2015 entre as principais moedas do mundo. Isso também deixaria a atual dívida de $230 bilhões de dólares muito difícil de gerenciar.

A única saída, neste ponto, seriam sérias e profundas reformas econômicas. A questão é, será que essas melhorias irão acontecer rápido o suficiente para inverter a atual tendência econômica, antes que paciência do povo brasileiro acabe? Dada a atual queda no crescimento econômico internacional e a baixa demanda por commodities, parece altamente improvável. O Brasil, mais uma vez, volta a ser o país com um futuro brilhante, mas que parece nunca chegar.

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