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O fim do crescimento rápido na China

Um fim de uma era chegou à China durante o verão de 2015. Para os investidores, a atual tendência de quedas no mercado chinês culminou com o grande sell off que ocorreu no dia 24 de agosto. As autoridades chinesas assistiram incrédulas, enquanto as ações desvalorizaram em 8,5% em questão de horas. Desde então, o dia ficou conhecido como Black Monday. Foi a maior queda em um dia na bolsa chinesa desde 2007. Isso serviu como um sinal para os investidores globais, em todos os lugares, que o modelo econômico promovido pelo governo chinês havia, finalmente, chegado a um ponto onde as forças de mercado não poderiam mais ser ignoradas por simples decretos.

Somente no mês de agosto, quase $5 triliões de dólares (Dólar dos Estados Unidos) em riquezas foram apagados dos mercados mundiais, como efeito da queda na China. A desvalorização do yuan havia criado uma reação em cadeia que desestabilizou as bolsas de valores, tanto em países emergentes quanto em países desenvolvidos.

O edifício Bolsa de Xangai, no distrito financeiro de Lujiazui. Xangai atualmente tem o 25º maior PIB de cidade do mundo, totalizando $304 bilhões de dólares em 2011.

Os índices chineses perderam mais de 40% de seu valor em relação ao pico que haviam registrado em junho. Grande parte desse declínio pode ser atribuído à diminuição do crescimento geral na segunda maior economia do mundo.

A demanda por exportações chinesas também está caindo com a desaceleração da economia mundial. A China já não é mais um mercado com demanda crescente por commodities do mundo emergente. Ao contrário, ela se tornou um competidor em um mercado cada vez mais difícil de bens e serviços.

O governo da China está dividido entre uma economia de comando, e uma em que as forças de mercado determinam o resultado de como e onde o dinheiro é investido. À medida que mais e mais investidores chineses abandonam as ações como um caminho para um maior crescimento, haverá uma corrida de volta ao mercado imobiliário. Ao contrário das ações, em que apenas uma pequena porcentagem da população está envolvida, o mercado imobiliário é responsável por quase um quarto do PIB nacional (Produto Interno Bruto), atualmente em $11,2 triliões de dólares.

Tanto o sistema bancário quanto o sistema financeiro geral da China estão sendo pressionados por ambos os ativos imobiliários privados e públicos. Embora tenha ocorrido uma correção saudável neste setor ao longo do último ano, este mercado também está sobrevalorizado, correndo perigo de sofrer grande desvalorização. Existem ainda muitas áreas da China onde os preços dos imóveis continuam em declínio, após os expressivos aumentos que ocorreram entre 2009 e 2013. O país possuí um grande estoque de imóveis não vendidos e subutilizados.

Nanjing Road, centro comercial de Xangai.

As autoridades chinesas estão admitindo publicamente a existência de excesso de capacidade industrial na economia doméstica. Muitas fábricas ainda estão operando a todo vapor, produzindo itens que não estão mais com demanda. No entanto, o governo continua financiando projetos de infra-estrutura, que passaram a ter pouco valor e importância visto o declínio do crescimento econômico.

O objetivo, é claro, é fornecer ainda mais estímulo à economia doméstica, que está rapidamente desacelerando. É o país com o maior nível de PPC (Paridade do Poder de Compra) do mundo, atualmente em $18,975 trilhões de dólares. A China superou os Estados Unidos neste item em 2014.

Os preços também estão caindo, assim como a superabundância de mercadorias estão criando estoques de produtos não vendidos. O valor das mercadorias diretamente da fábrica têm estado em declínio por mais de 3 anos. Esta situação vai fazer com que fique mais difícil para as empresas chinesas cobrirem as dívidas contraídas quando suas capacidades foram ampliadas, através de empréstimos feitos durante os anos de boom.

O próximo passo na evolução da economia chinesa será para aumentar o consumo interno, em vez das exportações. Os empecilhos para expandir a participação de mercado dos produtos chineses na economia global serão muito mais desafiadores, à medida que outras nações tomarão medidas protecionistas para combater a penetração de seus setores de exportação. Medidas políticas, como subsídios e uma maior desvalorização do yuan, provavelmente serão igualadas pelos outros países.

O presidente chinês Xi Jinping, dando mãos a outros líderes do BRICS, na cúpula do G20, em 2014, em Brisbane na Austrália.

Ao contrário da política monetária dos bancos centrais no mundo desenvolvido, onde as taxas de juros estão em ou perto de zero, a China ainda mantém uma taxa mais sustentável, de 4,6% ao ano. Assim, apesar dos recentes cortes no trimestre passado, com o último ocorrendo em 25 de agosto, os banqueiros chineses ainda têm muita margem de manobra se o crescimento reduzir ainda mais. Houveram um total de cinco reduções desde novembro de 2014. Além disso, a atual taxa de reserva de 18% para os grandes bancos também poderá ser reduzida.

O Banco Central da China (PBOC) também tem recursos abundantes para dar mais apoio à sua moeda caso se torne necessário, já que o país conseguiu acumular cerca de $3,7 trilhões de dólares em reservas cambiais ao longo dos anos.

Os $40 bilhões gastos recentemente em apoio ao yuan representam uma quantidade relativamente pequena, se considerarmos o montante total que o BPC tem acesso no caso de uma crise financeira mais séria. Um yuan mais fraco ajuda a promover as exportações, mas se a moeda cair precipitadamente, isto poderia causar uma grande fuga de capital.

O acentuado declínio no crescimento chinês acabou levando as bolsas dos mercados emergentes para território de correção, o que representa um declínio de pelo menos 10%. Muitos destes países já entraram em um bear market, com declínios de índice facilmente superiores a 20%. À medida que essas economias entram em recessão, a demanda por exportações chinesas continuará a cair. Se essas nações, dependentes de exportação, não poderem vender muitas de suas commodities para a China, isto acarretará em um efeito cascata que afetará toda a economia global.

Gráfico comparando os PIBs nominais de 2014 das principais economias, em bilhões de dólares, segundo dados do FMI.

O colapso nos preços das commodities têm devastado mercados emergentes em toda a África, Ásia e América Latina. A economia do Brasil, por exemplo, já está em recessão por causa desta tendência mundial. Nações como Indonésia e Malásia, geograficamente próximas à China, foram especialmente afetadas. Essa quedo nos preços também teve um grande impacto sobre várias economias desenvolvidas que atualmente são excessivamente dependentes da venda de commodities. Podemos incluir nesta lista países de diversas regiões do mundo, como a Austrália, Canadá e África do Sul.

Os preços das commodities estão atualmente no nível mais baixo desde o início do século. Isso incluiu vários itens, de produtos alimentares agrícolas à metais industriais como cobre, ouro, platina, paládio, prata e urânio. O setor da energia tem sido particularmente atingido, com os preços do carvão, gás natural e petróleo em seus níveis mais baixos em seis anos e meio.

A China tem sido o esteio para o crescimento mundial durante a maior parte do século 21. Muitas corporações ao redor do mundo estavam interessadas em explorar o crescente mercado chinês na última década. Agora, esses planos tomaram um rumo inverso, com várias empresas reduzindo suas operações devido ao rápido esfriamento da economia. Outro fator que está fazendo com que essas empresas estrangeiras deixem o mercado Chinês é o aumento dos salários, que está aumentando os custos de produção no país.

A China e outras grandes economias em desenvolvimento, por PIB per capita em paridade de poder de compra, de 1990 a 2013. O rápido crescimento econômico da China (vermelho) é facilmente perceptível.

Embora o governo da China continue insistindo que o crescimento ainda está perto de 7%, a maioria dos analistas externos duvidam da credibilidade das estatísticas do governo. Este escritor de investimentos acredita que é provável que a taxa de crescimento atual seja metade da taxa divulgada e, que existam chances de a economia chinesa entrar em recessão em 2016.

A forma como as autoridades chinesas decidem intervir na economia é muitas vezes abrupta e contraproducente, com falhas de comunicação e orientação. Isso causa confusão nos investidores e uma correspondente falta de confiança no próprio mercado.

Foi esse o motivo pelo qual parecia que a China estava pronta para se envolver em uma guerra cambial no mês passado, com uma grande desvalorização da sua moeda sem aviso prévio, o que fez com que os investidores ficassem nervosos e resultou em um aumento da fuga de capital.

As autoridades chinesas também gastaram $236 bilhões de dólares em um esforço para estabilizar os dois principais compósitos do país. No entanto, os índices de Xangai e Shenzhen continuaram com fortes oscilações nas avaliações, que ainda estão em queda. A compra de uma parcela cada vez maior do mercado total, que agora vale cerca de um terço do PIB chinês, por parte de instituições governamentais não irá restaurar a confiança dos investidores.

Terminal 3 do Aeroporto Internacional de Pequim, é o segundo maior terminal aeroportuário do mundo.

Felizmente para os líderes do partido na China, menos de 20% da riqueza das famílias é investido no mercado acionário interno. É claro que muitos desses investidores de primeira viagem pegaram dinheiro emprestado para comprar mais ações, o que vai agora levar a grande inadimplência.

Estima-se que isso possa afetar menos de 2% de todos os ativos bancários. No entanto, é importante notar que, dado que a China tem mais de 1 bilhão de pessoas, milhões de chineses podem decretar falência até o final deste ano e em 2016.

Gastos com estímulos, uma tática favorita de planejadores econômicos em todos os países, ainda podem ser aumentados na China. O objetivo do governo de um défice orçamental central não superior a 2,3%, ainda não foi rompido, pelo menos não até agora.

No entanto, o governo não pode gastar indiscriminadamente, como no rescaldo da crise de 2009. A dívida em relação ao PIB já é superior a 250%, que é uma duplicação do montante em apenas 7 anos. O total da dívida soberana chinesa excede a taxa do Japão, que está atualmente preocupadíssimo com a possibilidade de uma recessão e tem uma taxa de 230% (2014), mas não por muito.

Embora uma dívida dessa magnitude seja preocupante, há outros fatores afetando a China que são ainda mais alarmantes. Um deles é a queda demográfica que está por vir. Como resultado da política do filho único da geração anterior, a China está começando a sofrer com uma população cada vez menor de cidadãos em idade de trabalho. Além disso, a quantidade de gastos sociais que serão necessários a medida que a população envelhece, se tornará um fardo cada vez mais pesado nos próximos anos.

Gráfico que mostra o aumento do Índice de Desenvolvimento Humano da China, 1970-2010.

O dilema para a liderança da China é o quanto de poder ela deverá abrir mão a fim de permitir um maior crescimento da economia no país. Vários setores estão precisando de reformas, o que acabaria por liberar recursos que poderiam ser alocados de forma mais eficiente na atual super regularizada e burocrática economia. Mais concorrência seria a primeira ordem de negócios, onde empresas privadas poderiam finalmente ser tratados em pé de igualdade com empresas estatais. Outro item que iria ajudar a retomar o crescimento em vária regiões da China seria permitir a livre circulação da população, desse modo permitindo que as pessoas pudessem migrar para onde os empregos estão.

Fazer valer o primado do direito de todos os cidadãos, sejam eles ligados ao Partido Comunista ou não, iria ajudar a restaurar a confiança em um sistema que está sendo atormentado por corrupção e ineficiência. No entanto, estas reformas exigiriam uma diminuição da influência e poder da atual liderança. Sendo assim, essas mudanças serão decretadas somente ao longo dos anos, não a curto prazo.

Protestos em apoio à localização da mídia cantonesa, em Guangzhou, 2010.

A recente enxurrada de manipulações e procedimentos penais contra traders mal-intencionados no mercado local não conseguiu reverter o declínio das ações.  Na verdade, isso só serviu para diminuir ainda mais a confiança dos investidores, tanto internos quanto estrangeiros, na competência do governo chinês. Isso causou um prejuízo político para a credibilidade do governo chinês.

Como a China irá sobreviver ao fim do rápido crescimento econômico vai depender da vontade da liderança chinesa, em render cada vez mais seu controle às forças do mercado privado. Se o governo chinês não puder oferecer crescimento como uma justificativa para o presente monopólio do poder, a situação lá se tornará muito mais instável, tanto econômica como politicamente.

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