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A crise dos refugiados na Europa: o preço de uma política externa falha

Só temos de observar o caos que ocorre no Sul e no Sudeste da Europa para vermos que algo deu muito errado. Centenas de milhares de refugiados começaram a migrar do Oriente Médio e do Norte da África nos últimos meses, em números não vistos na Europa desde o fim da década de 1940. Os cidadãos europeus agora estão descobrindo que este deverá ser o preço à ser pago pelo fracasso de seus governos na condução de suas políticas externas ao longo dos últimos anos. As consequências econômicas e de investimentos destas ações mal planejadas estão apenas começando.

As grandes potências da Europa, além dos Estados Unidos, perseguiram ações, ou falta delas, no Oriente Médio e no Norte da África, que levaram à desestabilização de vários governos destas regiões. A lista cada vez maior de estados falidos e a confusão que seguiu devido aos seus colapsos, foram resultados diretos da falta de coragem dos líderes políticos do Ocidente.

Tropas americanas no Iraque.

Desengajamento, liderando por trás, falta de determinação, estas eram todas as políticas seguidas pelos governos dos países que tinham condições de fazer a diferença por conta própria, ou então em conjunto, como aliados. Em uma situação após a outra, esses governos, tanto de maneira individual quanto coletivamente, não tomaram medidas contra o aumento dos incidentes de terrorismo e a propagação de guerras civis.

A insensata decisão do governo americano de retirar todas as forças armadas do Iraque prematuramente em dezembro de 2011, liberou o caminho para um país dominado pelos xiitas de se concentrar em uma tomada de poder contra os curdos e os sunitas. Isso acabou deixando o país vulnerável a ataques da ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria), que começaram em dezembro de 2013 e, culminaram com uma invasão em grande escala, em junho de 2014.

Se as forças armadas dos Estados Unidos tivessem ficado indefinidamente no Iraque, apesar da imprudente promessa de campanha do presidente Obama, as forças da ISIS não teriam sido capazes de invadir grandes áreas de território, no nordeste do país. Isto teria ajudado a prevenir a desintegração política da autoridade central, bem como colocar um freio sobre a crescente influência do Irã no Iraque.

Assad com o presidente russo, Dmitry Medvedev, em 2010.

Quando o presidente americano Obama declarou um limite contra o uso de armas químicas pelo líder sírio Bashar Assad contra seu próprio povo, que estava em rebelião, ele não tomou nenhuma ação de retaliação quando esse limite foi ultrapassado. Isso não apenas provou ser um desastre para o povo sírio, em uma guerra civil cada vez maior, mas também mostrou que a força de um presidente americano já era algo que não precisava mais ser temido.

A contínua demanda por parte dos Estados Unidos e de vários países europeus, que Assad deixasse o poder, sem tomar nenhuma medida mais séria para que isso acontecesse, expôs a fragilidade da posição ocidental, não apenas para os inimigos na região, mas também para potências externas, como a Rússia e a China.

Isto acabou por definir as bases para uma guerra civil contínua, o que permitiu a ISIS a tomar o poder na parte norte do país, bem como permitir o que em breve será uma permanente presença militar russa na Síria. Devemos notar aqui que os Estados Unidos têm, há uma geração, tentado manter os russos fora do Oriente Médio.

Manifestantes anti-Gaddafi em Benghazi, fevereiro de 2011.

Junto com os agora fracassados estados do Iraque e da Síria, também podemos olhar para a situação na Líbia. Aqui são os europeus que levam a culpa por um dos maiores erros de política externa dos últimos anos, em 2011. Seriam França e o Reino Unido, com ajuda dos Estados Unidos, que iriam liderar os esforços para derrubar o ditador militar Muammar Gaddafi. A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) acabaria com a ditadura, capturando e acabando com Gaddafi.

Não somente a operação da OTAN foi infeliz em sua tentativa de impedir a desintegração da Líbia, como no final acabou acelerando-a. Pouco tempo depois o país foi dividido em duas facções principais e, logo depois, uma nova guerra civil acabou engolindo o país. Uma das facções ficou baseada no Leste, enquanto a outra ficou no Oeste. Logo, um ramo da ISIS, a Al Qaeda e outras várias milícias, começaram a disputar o controle do território dentro do país.

O fracasso dos europeus ocorreu quando Gaddafi foi derrubado, eles não estavam dispostos a alocar os recursos econômicos e militares necessários para estabilizar a Líbia. O novo governo estava fraco demais para manter o país unido sem a ajuda de seus vizinhos europeus em todo o Mediterrâneo. Como resultado, um outro estado falido passou a existir.

Manifestantes marcham no Cairo, 14 de fevereiro de 2014.

No Egito, após a revolução de 2011, a Irmandade Muçulmana ganhou metade dos assentos parlamentares naquele mesmo ano e as eleições presidenciais do ano seguinte. Menos de um ano depois de eleito, o presidente Morsi foi derrubado depois de grandes protestos, quando os militares finalmente terminaram o seu mandato.

Houve uma enorme hostilidade entre a população depois que este movimento tentou transformar a sociedade egípcia. De acordo com vários analistas, esta sequência de eventos foi o resultado de grande insistência do governo dos Estados Unidos, que queriam que o ex-presidente Hosni Mubarak fosse removido do cargo, forçando assim a sua demissão.

Já no Iraque, ficou claro que o inepto e corrupto governo central em Bagdá seria incapaz de parar a apropriação de terras por parte da ISIS no Norte. Com isso os curdos passaram eles mesos a defender sua histórica terra. Mesmo com a grande necessidade dos curdos por recursos para conseguirem realizar esta tarefa, o governo dos Estados Unidos continua insistindo que qualquer assistência militar deve ser conduzida através do governo central do Iraque.

Isto continua a ser o caso, mesmo agora, quando ficou bastante evidente que as armas destinadas aos curdos nunca serão entregues. Isto, mesmo depois de os curdos tornarem-se os lutadores mais eficazes contra os invasores da ISIS no Iraque. Isso é prova da recusa do governo americano em aceitar a realidade no Iraque. O Iraque, como um país, já não existe mais.

O território controlado pelos curdos, que há tempos já sofrem com as regras que emanam de Bagdá, é praticamente independente. Finalmente, este grupo de pessoas à quem havia sido prometido uma nação independente após a Primeira Guerra Mundial, estão perto de conseguirem este status. Mais uma vez, isso foi alcançado apesar das preferências americanas.

Protesto anti-guerra em Londres, no Reino Unido.

A relutância por parte do governo dos Estados Unidos até que é compreensível, dada a grande presença curda na Turquia. Teme-se que a transição para um estado Curdistão maior não deva ser incentivada, considerando que a Turquia é membro da OTAN e um aliado tradicional dos Estados Unidos. No entanto, até recentemente, a nação da Turquia praticamente não tem dado assistência alguma para deter a ISIS e, mesmo agora, está mais preocupada em combater os curdos no norte da Síria como seu principal objetivo militar.

Este é o tom da atual política americana e europeia, de não prestação de assistência militar à Ucrânia, que tem sido invadida pela Rússia. É verdade que existem simpatizantes para a ocupação militar russa no leste do país, devido à grande minoria russa lá, mas, mesmo com eles lá, uma invasão ocorreu mesmo assim. Isso ficou claro com a invasão e a anexação da Crimeia em 2014.

Os insurgentes no leste da Ucrânia já poderiam ter sido derrotados, não fosse as transferências de armas e recursos pela Rússia e a subsequente invasão do país. Isso fez com que uma vitória militar pelas autoridades de Kiev ficasse impossível, sem armas e recursos provenientes da Europa e dos Estados Unidos. O que os americanos e os europeus estão querendo neste momento é que a Ucrânia negocie com os invasores de seu país. O pensamento por trás dessa atitude dos europeus e americanos é que qualquer assistência militar para os ucranianos poderia aumentar ainda mais a guerra, como se um país não devesse ser capaz de defender o seu próprio território.

Impasse entre os moradores locais pró-russia e as forças ucranianas, em Mariupol, 9 de maio de 2014.

Devemos notar que em troca da rendição dos seus mísseis nucleares, as fronteiras da Ucrânia foram garantidas por um tratado em 1994. Os signatários do acordo, Conhecido como o Memorando de Budapeste, inclui o Reino Unido, Rússia e os Estados Unidos. Se o presidente russo, Vladimir Putin, decidir lançar uma guerra mais ampla na Ucrânia, mais a dentro no Oeste e no Sul, sem dúvida veremos muitos refugiados fugindo para a Hungria, Polônia, Romênia e Eslováquia, países os quais fazem divisa com a Ucrânia.

A propagação do terrorismo islâmico fora do Oriente Médio está se acelerando, como testemunhado pelo movimento Boko Harram na Nigéria, Chade, Níger e no norte dos Camarões. Os franceses finalmente interviram, sob os auspícios da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2013, afim de evitar que os insurgentes islâmicos no norte de Mali avançassem para o sul, assim tomando o país inteiro. As atividades terroristas estão aumentando, com a fixação de células terroristas por toda a região, o que está fazendo com que muitas pessoas que vivem por lá migrem para a segurança da Europa.

Curdos iraquianos fugindo em direção a Turquia.

No Iraque e na Síria há um esforço conjunto para eliminar a presença cristã nesses dois países, que já existe há dois milênios. Outros grupos minoritários receberam um tratamento semelhante, levando a migrações em massa de pessoas para países vizinhos, como Jordânia, Líbano e Turquia. Esses refugiados, por causa de seus números absolutos, acabaram desestabilizando seus países hospedeiros.

Somente o Líbano já recebeu mais de um milhão de pessoas da Síria. Isto é, em um país com apenas 4,8 milhões de habitantes. A Jordânia recebeu mais de 600 mil imigrantes, e a Turquia, perto de 2 milhões. Até agora quase 4 milhões de sírios fugiram de sua terra natal, sendo que mais de 7,6 milhões foram deslocados internamente. Espera-se que muitas dessas pessoas eventualmente irão se refugiar em direção às costas europeias.

Na Síria, o governo de Bashar Assad com a ajuda de seu aliado, o Irã, está promovendo o despovoamento de amplos espaços no interior do país. Isto está sendo feito para que a população indígena possa ser substituída por pessoas mais propensas a aceitarem o novo arranjo concebido pelos iranianos e o governo de Assad.

Crianças refugiadas da Síria em uma clínica em Ramtha, norte da Jordânia.

O mesmo é verdade no norte do Iraque, onde muitos dos cidadãos que fugiram da área não irão mais voltar. Eles serão substituídos por novas populações vindas do sul. Até o momento, os Estados do Golfo se recusam a aceitar os refugiados provenientes dessas zonas. O motivo dado para isso pelo Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã, Catar e Arábia Saudita, entre outros, é que possam existir terroristas incorporados nesses grupos.

A conexão terrorista é uma preocupação legítima, mas, já que os países que fazem fronteira com as áreas em guerra já estão inundados com refugiados, o mais provável que aconteça é que novos refugiados irão procurar asilo na União Europeia. O número de refugiados que já foram para lá está atualmente na casa das centenas de milhares, e em breve, milhões de pessoas tomarão o mesmo rumo.

Em 2014, cerca de 280.000 refugiados vindos das áreas instáveis ​​do norte da África e no Oriente Médio entraram na Europa. Mais de 350.000 já chegaram no continente até o final de agosto deste ano. As migrações anteriores, provenientes dos conflitos no Afeganistão e na Eritreia, foram amplamente superadas pela catástrofe humana que está acontecendo na Síria.

Só a Alemanha espera receber mais de 800 refugiados. A taxa de requerentes de asilo na Europa, como um todo, foi de 435.190 em 2013, e 626.065 em 2014. Não se pode dizer ao certo quantos serão processados este ano.

Refugiados esperando para atravessar a fronteira greco-Macedônia, 24 de agosto de 2015.

Em resposta à chegada em massa de pessoas na Europa, 5 países já construíram cercas fronteiriças. Os meios de comunicação têm concentrado a maior parte de seus recursos cobrindo os húngaros, que recentemente ergueram uma cerca na fronteira com a Sérvia. No entanto, outros países na região já construíram barreiras para conter o fluxo de recém-chegados. Tais países incluem a Bulgária, Grécia, Turquia e a Macedônia. É provável que esta infra-estrutura será expandida à medida que os migrantes mudem seu êxodo mais ao oeste, em direção a Croácia e a Eslovênia.

A Áustria e a Alemanha já colocaram suas tropas nas fronteiras, pelo menos para ganhar alguma aparência de controle sobre elas. A Itália também vem sendo oprimida pelas chegadas de imigrantes pelo mar, o que também é um grande problema para a Grécia. Estes países possuem longos litorais, o que torna quase impossível parar a entrada de novos refugiados. A periferia exterior da Europa está sentindo o peso da inundação de imigrantes, tanto econômica quanto politicamente. Em breve este problema irá se espalhar por toda a Europa.

Mapa da área Schengen na Europa.

As recentes ações tomadas por vários países vão contra o Acordo de Schengen, que permite passagem livre e sem a necessidade de vistos entre os países da Zona do Euro.  O chamado das autoridades na Europa, que o ônus da aceitação e relocação de refugiados em toda a União Europeia deve ser compartilhada, não está sendo reconhecido por vários países.

países na Europa Oriental afirmando que são economicamente incapazes de aceitar os números sendo sugeridos pelos dirigentes da União. Outros países já estão insinuando que eles irão aceitar apenas refugiados cristãos. Até agora, apenas a Eslováquia declarou publicamente esta posição, mas à medida que os números aumentem, é provável que este sentimento se espalhe em outras nações. Eles observaram o que ocorreu em países com grandes populações muçulmanas. A atividade terrorista em França, por exemplo, está criando uma reação política por toda a Europa.

O medo de terroristas que chegam misturados aos refugiados tem se intensificado, com as declarações feitas pela ISIS e outros grupos islâmicos que isso já ocorreu. Isso está criando crescente controvérsia na Europa, que provavelmente logo será maior o problema da dívida soberana.

Refugiados perto da fronteira da Hungria com a Sérvia, 24 de agosto de 2015.

O impacto econômico em curto prazo de acomodar tantos recém-chegados, em breve será ultrapassado pelas consequências a longo prazo relacionadas a absorção de tantas pessoas com valores culturais muito diferentes dos cidadãos nativos desses países.  Muitas vezes esses refugiados são locados em países que já lutam com altos níveis de endividamento, alto desemprego e baixos níveis de crescimento econômico.

De onde que os recursos financeiros, para fornecer alojamento e ajuda de custos para esse povo, irão vir? Como será fornecido a todos esses novos imigrantes trabalho, além de ajuda para poderem aprender a nova língua, para que eles consigam sobreviver e tornarem-se bem-sucedidos nos países que os acolheram? Como eles serão impedidos no futuro de migrarem para países que poderiam oferecer melhores oportunidades, como a Alemanha? Estes recém-chegados serão capazes de se adaptar aos países que eles irão agora vai chamar de lar?

A União Europeia está prestes a enfrentar uma crise de proporções épicas, que irá sobrecarregar instituições que foram projetados para lidar com questões de outra era. A crescente tensão que está sendo colocada nos países membros da União, em breve irá minar o atual espírito de coesão na tentativa de se chegar a uma política comum. É improvável que a Europa vá sobreviver à atual situação e continuar como está, tanto econômica quanto politicamente.

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