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A crise migratória irá dividir a União Europeia

A Europa acabou de superar a pior parte da crise da dívida pública e também o problema do incumprimento soberano da Grécia, e já está tendo que enfrentar outra crise de grandes proporções. A enxurrada de refugiados que chegam do Oriente Médio e do Norte da África está ameaçando desfazer tudo o que levou uma geração, ou até duas, para ser construído. Vários analistas já estão questionando se as instituições da União Europeia são robustas o suficiente para confrontar o que está provando ser a maior migração de pessoas para Europa, desde a crise dos Balcãs na década de 1990.

Existem duas questões imediatas que precisam ser confrontadas com relação aos imigrantes. Onde assentar os refugiados que já chegaram às costas europeias e, como evitar os milhões que virão nos próximos meses? A ideia que você possa permitir que grandes grupos de pessoas sejam amontoadas às pressas, com barreiras que impeçam a sua circulação, é totalmente sem sentido. É um problema que terá de ser resolvido o mais rápido possível, já que o intenso frio do inverno europeu se aproxima rapidamente.

O Parlamento Europeu votou a favor de um sistema de quotas de imigrantes, para ter certeza de que os requerentes de asilo sejam distribuídos de forma mais equitativa entre Estados-Membros.

A questão mais urgente é como distribuir os exilados que se encontram em vários pontos das fronteiras, que já estão lotados de pessoas. As nações europeias que recentemente conseguiram sair da crise das dívidas públicas, podem muito bem achar que atualmente elas não tem condições econômicas para absorver os refugiados provenientes do leste e do sul. A Irlanda, Portugal e a Espanha estão todas nesta categoria. Podemos incluir nesta lista a Grécia e talvez até mesmo a Itália, todavia, mesmo perante a hesitação deles, já existem grandes números de refugiados nesses dois países.

Os líderes políticos da Europa Oriental têm deixado bem claro que estão receosos em aceitar um grande número de refugiados. Eles baseiam essa avaliação em dois pontos principais. A primeira é que as economias da região não são robustas o suficiente para fornecer os recursos necessários para realizar a tarefa. Na verdade custa caro absorver um grande número de pessoas ao longo de um relativamente curto período de tempo.

Comício anti-imigração chamada “Para nossa cultura e país seguro” em Praga, República Checa, em 12 de Setembro de 2015. De acordo com a pesquisa, mais de 70% dos checos rejeitaram a vinda dos refugiados do Oriente Médio e da África.

O segundo fator é como assimilar essas pessoas, que são bastante diferentes dos residentes locais desses países. Ao contrário da Europa Ocidental, que no seu conjunto tem grandes minorias de pessoas de fora da região, a parte oriental do continente não tem lidado com este tipo de problema desde o rescaldo da II Guerra Mundial. De fato, tem ocorrido uma migração para fora da área, com jovens se mudando para o oeste à procura de melhores oportunidades econômicas.

Na verdade a Europa Oriental até iria se beneficiar economicamente caso houvesse uma imigração para a área. Não vai demorar muito e a região vai começar a sofrer com falta de mão de obra especializada, à medida que a população envelhece rapidamente. O problema é que os recém-chegados são difíceis de assimilar e estão vindo em maior número do que pode ser facilmente acomodado.

As fronteiras abertas da União Europeia (UE), resultado do acordo de Schengen, permitiria que os recém-chegados pudessem migrar facilmente para o oeste, à procura de melhores perspectivas. Isso é parte do problema com relação a sugestão de que a onda de imigrantes deveria de ser dispersa por todo o continente. Como você faria para que eles ficassem, uma vez que eles iriam querer se mudar para o oeste ou para o norte?

A onda de refugiados que chegou no final do verão europeu é simplesmente muito grande para as tradicionais leis da União Europeia, que foram decretadas para lidar com esse tipo de questão. A política de boas-vindas que a Alemanha adotou no final de agosto e início de setembro foi rapidamente revertida. A chanceler alemã Angela Merkel, que já havia anunciado que o país iria de alguma forma dar um jeito, acabou descobrindo que haviam inúmeras vozes em seu próprio governo que pensavam o contrário.

A cerca da fronteira húngaro-sérvio.

Em 13 de setembro, a Alemanha restabeleceu a vigilância e os controles ao longo da fronteira com a Áustria. Isto imediatamente escalou a crise, porque a Hungria estava permitindo que os refugiados atravessassem o seu país, desde que a Alemanha estivesse disposta a aceitá-los na outra extremidade.

Quando este deixou de ser o caso, os húngaros logo construíram uma barreira e começaram a patrulhar a fronteira com a Sérvia. À medida que os migrantes se deslocam para o leste, para a Romênia, e oeste para a Croácia (que ainda não faz parte do Acordo de Schengen), com a intenção de contornar a barreira, os húngaros ameaçaram alargar as novas cercas de arame, que foram construídas às pressas.

A Áustria, a Eslováquia e a Holanda logo seguiram o exemplo e fecharam as suas fronteiras. Como membros do Acordo de Schengen, estas nações estão insistindo que as novas medidas são temporárias e, portanto, perfeitamente legais. No entanto, isso está criando um efeito dominó à medida que mais nações da Europa estão se sentindo ameaçadas com a política de fronteiras abertas. Isso só coloca ainda mais pressão nos países localizados nas periferias do continente, os quais muitos imigrantes já ocuparam.

O Espaço Schengen, em azul.

A declaração feita pela a Alemanha a um tempo atrás de que o país aceitaria até 800.000 refugiados, agora está sendo revista, com o país insistindo que uma cúpula europeia chegue a um consenso sobre uma forma justa de distribuir os recém-chegados.

Talvez o governo alemão tenha se sentido obrigado a fazer isso uma vez que ficou claro que a Alemanha é o principal destino dos refugiados e, também, que existem outras regiões dentro do próprio país que não estão gostando muito de terem de acomodar um grande número de imigrantes.

Até meados de setembro, houve um esforço para se chegar a um sistema de quotas que forçaria os países membros a aceitar um certo número de refugiados. Os políticos que representam os países do leste da Europa foram os que mais protestaram contra.

A ameaça feita pelo Ministro do Interior alemão, de que os subsídios da UE devem ser cortados para os países que se recusarem a aceitar refugiados, só serviu para reforçar a de crise.

Outra medida que a Alemanha poderia adotar, é estender os controles nas fronteiras para o norte, da Áustria até a República Checa e a Polônia. Isso iria forçar o registo de refugiados requerentes para as áreas de fronteira, criando novos pontos de obstrução. Isso teria um efeito negativo sobre a livre circulação de bens, serviços e pessoas nessas fronteiras. Na verdade, isso acabaria sendo um grande golpe econômico para as nações da Europa Oriental.

Estação ferroviária Wien (Viena) Westbahnhof em 5 de setembro de 2015, na Áustria: os imigrantes a caminho da Alemanha.

Essas ações da Alemanha também sinalizaram uma reversão na política de cooperação e integração cada vez maiores entre os Estados membros. É pouco provável que as atitudes tomadas, ainda mais nesse nível, não afetarão de maneira geral as relações políticas entre os vários países dentro da União Europeia. Isso poderia facilmente se espalhar para outras esferas de interesse, à medida que as nações comecem a recorrer a tendências mais nacionalistas.

Há cada vez mais pessoas, tanto dentro como fora da Alemanha, que acham que a política de boas-vindas feito pelo governo na verdade só fez a situação piorar ainda mais. A calorosa recepção que foi dada as primeiras ondas de refugiados, que tinham sido autorizados a virem da Hungria para a Alemanha, apenas servir para encorajar mais pessoas a seguirem em direção à Europa. O primeiro encontro com o povo alemão, com flores e doces na mão, foi, sem dúvida, relatados de volta para seus países, incentivando outros a migrar para o país.

A Chanceler Merkel, que acaba de sair da crise da dívida pública sem muitos problemas em casa, descobriu que a sua aliança política com a União Social-Cristã da Baviera está um pouco desgastada. É muito provável que só irá piorar a medida que esta situação com os refugiados se agrava. A normalmente cautelosa Merkel se tornou ao mesmo tempo uma campeã dos exilados e um pára-raios para a oposição.

Cerca na fronteira de Melilla, na Espanha.

A resistência política, que via a ascensão de uma maior integração europeia como uma ameaça à soberania nacional, já está comemorando o dilema enfrentado por Merkel e aqueles que seguem a sua liderança. A Frente Nacional anti-sindical da França e o Independence Party do Reino Unido, já estão prevendo o fim do espaço Schengen e uma maior integração da Europa.

Partidos nacionalistas em vários países da Europa Oriental estão ecoando o sentimento. O estresse que será colocado em cada nação com a assimilação de um grande número de refugiados, só vai dar mais credibilidade para essas vozes.

Partidos anti-imigrantes estão ganhando força política nas atuais circunstâncias. Isso é mais evidente nas nações da Dinamarca, França, Grécia, Países Baixos e Suécia. Vários países, como a Hungria, a Polônia, a República Checa e a Eslováquia não desejam se tornar sociedades multiculturais, como a França, a Alemanha e o Reino Unido.

Número de imigrantes na Hungria, por semana, maio a setembro de 2015.

O grande número de imigrantes que estarão chegando e a urgência que isso irá colocar na autoridade central da União Europeia, bem como nos governos nacionais individuais, não pode ser subestimada. Em breve, isso irá criar uma conjuntura política que trará a queda de vários governos, em um acontecimento muito parecido com o que ocorreu durante a crise da dívida pública.

A chegada de 3 milhões de refugiados às costas europeias, de acordo com as últimas estimativas, vai pesar muito nas nações que formam a fronteira externa da União. De acordo com as atuais regras de imigração, os imigrantes devem pedir asilo no primeiro país que eles puserem o pé.

Muitas vezes, estes são os países menos capazes de processar novos imigrantes e fornecer-lhes acomodações temporárias. Além disso, muitos dos migrantes não desejam permanecer em tais lugares, preferindo se deslocarem para a área central da Europa, que é mais rica e convidativa.

Imigrantes chegando em Munique, na Alemanha.

A assimilação desses recém-chegados não será fácil, sendo que será muito mais difícil nos países que são culturalmente mais uniformes. A Polônia, por exemplo, tem uma população constituída de 98% de brancos, sendo a religião predominante a Católica Romana, 94% da população. A Eslováquia já declarou publicamente que, se eles tiverem que aceitar quaisquer refugiados, eles devem ser cristãos. É um sentimento que muitos compartilham em todo o continente.

Uma coisa é certa na atual crescente crise, será difícil para a UE lidar com esta última catástrofe humana sem criar um retrocesso político entre as populações nativas de muitos países da Europa. O desespero cada vez maior dos imigrantes, e a resposta por parte dos países sendo invadidos a isso, com certeza irá disseminar desordem e violência em várias fronteiras em diversos países. Há também um medo cada vez maior de terroristas infiltrados em meio aos refugiados. O que todos estão se perguntando é, será que a União Europeia irá sobreviver a rápida migração e assimilação de tantas pessoas de origens tão diversas, tanto ética quanto religiosamente, nos meses e anos que estão por vir?

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