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A difícil situação da Grécia é preocupante

Mais uma vez, os eleitores na Grécia escolheram a saída mais fácil, mas também a mais problemática. Eles continuam acreditando na fantasia de que o país pode seguir gastando além dos meios da atual economia grega. Ao recolocar no poder o candidato “anti-austeridade”, o povo grego deixou todos perceberem que a emoção e a imagem são mais importantes do que o bom senso. Eles não vão aceitar que foi tal atitude e ideologia que acabaram quebrando o país.

Uma segunda oportunidade para os cidadãos surgiu quando o primeiro-ministro esquerdista, Alex Tsipras, foi forçado a renunciar em agosto. Isso ocorreu porque os membros de seu próprio partido, Syriza, abandonaram o próprio líder quando ele enfrentou uma importante votação no Parlamento grego. O assunto em questão era saber se a Grécia seria forçada a aceitar determinadas condições fiscais, a fim de qualificar-se para mais um grande resgate financeiro, proveniente da Europa, sendo o terceiro em 5 anos.

A eleição realizada em setembro acabou trazendo de volta para o poder o ex-primeiro-ministro, depois de estar fora do cargo por um mês. Enquanto ele estava na oposição política em 2014, ele constantemente blasfemava contra os governos socialistas e de direita, e também suas políticas. Esses líderes tinham uma responsabilidade para com o governo e não podiam ficar lidando apenas com o teórico. Eles estavam tentando tirar o país da recessão, que foi causada por gastos descontrolados e uma enorme acumulação de dívidas, ao longo de décadas.

Alex Tsipras tinha recursos suficientes para promover a ideia de que uma economia controlada principalmente pelo Estado, criaria empregos e traria de volta as generosas pensões do passado. Ele foi tão bem nisso que acabou sendo eleito para tomar o poder em janeiro de 2015, bem quando a economia da Grécia estava retomando o crescimento e o equilíbrio fiscal primário. O que significa que tirando os pagamentos de juros da dívida, as despesas do governo estavam sendo cobertas pelas receitas fiscais.

Yanis Varoufakis

O devidamente eleito Tsipras continuou com a charada após assumir o cargo. Ele e seu Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, em seguida, levou suas ideias para os líderes e banqueiros da Europa e do mundo. Não surpreendentemente, eles descobriram um público nada muito receptivo. A premissa de que a Grécia deveria ser autorizada a gastar prolificamente e assumir nenhuma responsabilidade pelas consequências disso, era um anátema para seus homólogos em outras partes da União Europeia (UE).

Não era de se estranhar que esta nova piada grega não foi muito bem recebida fora do país. Em primeiro lugar, os gregos estavam se recusando a “jogar” pelas regras que todos os outros tiveram de aderir. Em segundo lugar, eles estavam esperando que os outros países fossem apoiar financeiramente a generosidade do governo grego para com seu povo. Esses dois fatos foram o que melaram o acordo. Não importa o quanto Varoufakis tentou persuadir e intimidar sua oposição em torno do continente, ele simplesmente alienou as próprias pessoas que teriam de aprovar a continuação do fluxo de dinheiro.

No fim das contas, seria o ministro das Finanças da Alemanha que acabou terminando com o esquema proveniente de Atenas. Então o governo grego finalmente recebeu um ultimato. Ou ele respeitava as regras estabelecidas pela UE, ou os empréstimos e a assistência financeira para os bancos gregos cessariam.

Wolfgang Schäuble, Ministro das Finanças alemão.

Ao se recusar a aceitar os novos termos, Alex Tsipras quebrou unilateralmente as negociações no final de junho e anunciou que haveria um referendo nacional sobre o novo acordo de resgate, prevista para 05 de julho. Como esperado, os eleitores gregos rejeitaram as novas condições europeias, que estavam sendo reforçadas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).

Acreditando que o referendo o fortaleceu na arena internacional, Alex Tsipras se recusou a dar o braço. Ele erroneamente assumiu que os oficiais da União Européia não iriam permitir a temida saída da Grécia do bloco. Isso seria a saída da Grécia da zona da moeda comum, o euro.

O que o primeiro-ministro não conseguiu perceber foi que os eleitores em outros países também tinham deixado suas intenções bem claras. Seria Alemanha que iria pôr um fim neste drama todo.  A chanceler alemã discutiu abertamente a possibilidade de uma retirada temporária da Grécia da Zona do Euro. Talvez ela tivesse chegado a conclusão de que o povo grego precisava compreender o que a intransigência de seu governo iria resultar no final.

Estados membros do FMI estão marcados em verde escuro. Em verde claro estão os países que não aceitaram os termos e obrigações.

À medida que um incumprimento soberano se tornava evidente, as consequências dessa eventualidade começaram a surgir. Controles de capital logo foram aplicados, a fim de evitar um colapso do setor bancário. Logo, o pagamento dos salários públicos e as pensões não podiam mais ser pagos em euros, já que os bancos gregos começaram a ficar sem dinheiro. Os cidadãos sofreram na pele a angústia de não poderem acessar o seu próprio dinheiro. Os pagamentos para os aposentados e os salários dos trabalhadores não foram cortados, mas os beneficiários não tinham acesso aos pagamentos que estavam sendo feitos.

Pior ainda, já que a Grécia não realizou o pagamento de uma parcela de sua dívida com o FMI, ela já não podia mais contar com nenhuma assistência financeira deste órgão internacional. A Grécia teria agora a distinção de ser o primeiro país desenvolvido do mundo a não realizar um pagamento ao FMI. Isso também foi um sinal para os investidores em todos os lugares de que o país não era mais digno de crédito. Logo, os mercados começaram a despencar e a economia começou a entrar em colapso também.

Vangelis Meimarakis, o chefe da oposição conservadora de Tsipras.

À medida que ficou claro para Tsipras, que ele tinha exagerado a mão, ele começou a fazer uma correção de rumo na sua política. O Ministro das Finanças Varoufakis, acabou renunciando ao cargo e o governo grego começou a negociar novamente, a fim de evitar o que estava sendo chamado de Grexit involuntário. Logo, um novo acordo da dívida foi organizado, sendo que agora o país iria receber uma ajuda adicional no total de 86 bilhões de euros, o equivalente a USD $95 bilhões (Dólar dos Estados Unidos).

Infelizmente para Tsipras, sua retórica anterior e de seus aliados no governo dificultou a aprovação do novo acordo de dívida no parlamento grego. O primeiro-ministro logo sofreu o constrangimento de ter membros de seu próprio partido que o abandonaram no legislativo. Ele foi forçado a contar com adversários políticos para passar o intragável entendimento financeiro. Quando tudo acabou, sua demissão foi praticamente um fato consumado.

No mês que se seguiu, os eleitores gregos tiveram de decidir se o país estava melhor ou não desde a eleição de Syriza, no início do ano. Ficou evidente que o acordo que foi alcançado era muito mais rigoroso do que o que estava em vigor durante o mandato do governo anterior. Mais uma vez, os eleitores gregos deixaram a lógica e o bom senso de lado. Eles preferiram acreditar que Alex Tsipras, o principal responsável por todo este fiasco, era a resposta para resolver a recém-criada crise.

Em azul os países membros da Zona do Euro.

No final ficamos com dois cenários plausíveis. Ou o Sr. Tsipras nunca acreditou nos antigos princípios que ele estava defendendo ou, ele tinha mudado totalmente seu ponto de vista sobre a forma de gerir as finanças gregas e tentar retomar o crescimento. Ele deixou as pessoas com a impressão de que a mudança de posição é motivada mais pela politicagem do que por qualquer outra coisa. Ou seja, a sobrevivência do Sr. Tsipras no poder é mais importante do que a ideologia.

Se Tsipras quisesse permanecer como primeiro-ministro, ele tinha que entender que os eleitores gregos queria duas coisas. Uma delas era não ter que concordar com e ter de cumprir mais austeridade, imposta pela União Europeia, e a outra é que o país precisava para permanecer na zona da moeda comum. O fato que estes dois objetivos estavam em total contradição parecia não ser do conhecimento do eleitorado.

O que também havia se tornado bastante claro foi que a UE não iria mais tolerar qualquer nação membro desprezando abertamente as regras financeiras que foram acordadas e ficando impune. O governo alemão garantiu isso. Qualquer nação da Zona do Euro que solicitasse assistência financeira, teria de concordar com as condições estabelecidas pela burocracia em Bruxelas. Além disso, agora tinha ficado evidente o que muitos já haviam imaginado, que qualquer acordo de empréstimos que envolva dívida pública, necessitaria de aprovação da Alemanha.

Então, os eleitores gregos escolheram acreditar que, depois de duas décadas de ideologias esquerdistas, o seu recém-eleito primeiro-ministro iria agora adotar uma posição totalmente contrária ao seu antigo ponto de vista. Não que os políticos não possam mudar de opinião sobre diversas questões, mas uma mudança radical na sua orientação e crenças é difícil de assimilar, ainda mais quando isso ocorre em questão de semanas.

A parte difícil em convencer o público grego sobre a sinceridade da conversão está por vir. Isso será feito através de uma revisão das finanças gregas e da gestão econômica. O novo governo deve aumentar imediatamente os impostos, reduzir os pagamentos com pensões e intensificar a privatização de empresas estatais. Tsipras tinha se oposto veementemente a todas essas medidas durante sua primeira passagem como Primeiro-Ministro.

Panos Skourletis

A fim de manter o apoio de uma maioria na legislatura, Tsipras não procurou formar uma aliança com a esquerda pró-europeia, mas sim voltar para a coalizão de seu primeiro mandato. Isso seria os Gregos Independentes, um partido nacionalista de extrema direita.

Seu novo gabinete também vai continuar abrigando alguns dos maiores críticos à austeridade, o novo acordo da dívida pública e do capitalismo em geral. A retenção, por exemplo, de Panos Skourletis como ministro da energia e ambiente, indica claramente que não haverá mudanças na política do governo com relação ao setor privado. O ministro já desaprovou o investimento estrangeiro em mineração, que teria sido o maior investimento dos últimos vinte anos para a Grécia.

Ao invés disso, o Primeiro-Ministro descobriu um novo inimigo para a prosperidade grega. São os sonegadores de impostos e a corrupção em geral. Estes são os novos alvos de sua nova retórica, ao invés da Alemanha e do FMI. Se ele realmente levar a sério esta repressão, ele irá encontrar uma resistência bastante forte por parte da velha elite política do país. Até agora não houveram denúncias de quaisquer empresários gregos corruptos, mas, para sermos justos, o segundo mandato recém começou e ainda é muito cedo para dizer qualquer coisa.

A verdadeira crise virá em 2016, quando os efeitos da nova austeridade começarem a pesar. Vai ser aí que o povo grego irá ver que apesar de toda a propaganda do governo, não há uma saída senão pagar pelos excessos financeiros do passado. A taxa da dívida pública em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) continua em elevados 177%. Vai ficar muito mais difícil de pagar ela agora que a recuperação econômica descarrilhou e que a falta de confiança dos investidores na Grécia aumentou.

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