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O retorno do “urso” russo ao Oriente Médio

O equilíbrio do poder no Oriente Médio está mudando rapidamente. A retirada dos Estados Unidos como um importante intermediário na região é inconfundível. Os antigos países coloniais da região, principalmente a Grã-Bretanha e a França, são incapazes de, e também não querem, se envolver na crescente instabilidade. No vácuo de poder resultante, a Rússia voltou com força total.

É o 45º aniversário da Operação Kavkaz, quando as forças soviéticas interviram no conflito militar entre o Egito e Israel. Na época, a chegada dos russos salvou seu aliado egípcio de uma mudança de regime, preservando, dessa maneira, um ativo estratégico na região. A Guerra de Atrito que ocorreu entre 1969 e 1970, foi a única vez na história que o Exército Vermelho combateu o exército israelense.

Mísseis antiaéreos tipo S-125 soviético/egípcio nas imediações do Canal de Suez.

Foi um grande momento para o ativismo soviético, que foi seguido pela expulsão das forças armadas russas do Egito, em 1972. Isso ocorreu devido à mudanças na política externa egípcia, que antes estava sob a liderança de Gamal Nasser, que foi substituído pelo regime mais pró-ocidental de Anwar Sadat.

Naquela época, assim como agora, as ações do exército russo vieram como uma grande surpresa para a agência de inteligência norte-americana e também para as de outros países ocidentais. Isso marca um novo ativismo para o presidente Putin na região e também mostra seu desprezo para com as preferências dos Estados Unidos.

A justificativa para a intervenção russa é multifacetada. O mais óbvio que o país está tentando apoiar a atual aliança com o governo da Síria, que está em perigo de colapso. Putin está ansioso para preservar o acesso ao porto naval de Tarso, que permite à Rússia a projetar seu poder no mar Mediterrâneo, que é território da OTAN (North Atlantic Treaty Organization).

Outra meta inclui a criação de uma zona neutra entre os radicais islâmicos na região e sua própria população muçulmana rebelde no sul da Rússia. Existem também intenções de exportar tecnologia russa em equipamento militar e de energia nuclear. Este crescente mercado é importante para uma economia irá contrair cerca de 3,8% este ano, em meio a grande oferta de petróleo nos mercados mundiais e as sanções ocidentais.

Árabes cristãos, maronitas e coptas no Mediterrâneo Oriental, em 2009.

A Rússia também será capaz de continuar no seu tradicional papel de protetora das comunidades cristãs, cada vez mais vulneráveis em todo o Oriente Médio. Os Estados Unidos e seus aliados europeus falharam completamente nesta tarefa. Só precisamos observar a presente crise de refugiados na região para ver a realidade dessa situação. Milhões de pessoas estão atualmente fugindo, superando totalmente a capacidade dos países vizinhos, nesse caso a Jordânia, Líbano e Turquia, de absorvê-los. Como resultado, centenas de milhares estão fugindo para a Europa.

A Primavera Árabe, que recebeu o apoio tácito do governo americano e dos principais países europeus, não era uma repetição do movimento pela democracia na Europa Oriental que ocorreu no final da Guerra Fria. Ao invés disso, trouxeram caos e uma instabilidade crescente, à medida que governos autoritários seculares foram substituídos por fundamentalistas islâmicos.

Manifestantes no centro de Tunis, em 14 de Janeiro de 2011, poucas horas antes de o presidente Zine El Abidine Ben Ali fugir do país da Tunísia.

A Rússia tinha três grandes aliados na região antes da Primavera Árabe. Elas eram as nações do Irã, Líbia e Síria. A Líbia é, para todos os efeitos práticos, um Estado falido, como resultado da intervenção americana e europeia. A Síria corre o risco de ter o mesmo destino, devido a uma guerra civil atualmente em curso. A insistência do presidente americano Obama, de que Assad deve ser substituído, é na visão russa totalmente sem sentido, dada a atual situação no território. Na verdade, os russos culpam os Estados Unidos por incitar a atual insurgência dentro da Síria.

Somente o Irã permanece unido e também mais forte com o crescente caos na região. Na verdade, a liderança iraniana tem todo o interesse em fomentar mais problemas ainda, como uma forma de aumentar a sua influência no Oriente Médio. Adversários sunitas de longa data, vem caindo um por um. Um Iraque secular já não está mais no caminho da intenção iraniana de dominar a área. O país, atualmente dividido, já se tornou praticamente um satélite político do Irã.

Signatários anunciando o acordo nuclear com o Irã, em julho de 2015.

O recente acordo nuclear com o Irã, que a Rússia ajudou a concretizar, irá ajudar a liderança iraniana em seu objetivo de se tornar a potência dominante no Oriente Médio. A Rússia está reforçando os laços com seu vizinho ao sul, apesar da propensão iraniana para fazer travessuras, patrocinando uma série de grupos terroristas na região.

Outra evidência da mudança de alianças é a reação entre alguns dos aliados mais importantes dos Estados Unidos. A Rússia está tentando convencer os governos do Egito, Jordânia, Arábia Saudita e vários dos ricos em petróleo Estados do Golfo, em criar um esforço cooperativo para lidar com algumas das questões mais prementes que essas nações estão enfrentando.

Ao longo dos últimos meses, o rei da Jordânia, o presidente do Egito, e os príncipes da coroa de Abu Dhabi e da Arábia Saudita, têm viajado à Rússia para discutir uma miríade de questões que incluem não só a política regional, mas também novas armas e acordos nucleares. O emir do Kuwait e o rei da Arábia Saudita, ambos tem planos de chegar mais tarde este ano. Os recentes exercícios navais, em grande parte não declarados, que a Rússia realizou com o Egito e China é apenas o começo da nova presença naval russa na região.

Soldados de infantaria naval russa durante o exercício estratégico Vostok, em Vladivostok, 2010.

O colapso quase total de uma série de iniciativas e prerrogativas políticas por parte dos americanos, têm forçado os estados mais moderados na região em reavaliar a sua antiga dependência na força do exército norte-americano, no Oriente Médio. A tática de simplesmente esperar pela Administração Obama, a fim de ver o retorno a função mais tradicional que os americanos desempenhavam desde a década de 1970, foi agora substituída por uma política mais prudente.

A mudança na Arábia Saudita é o mais notável. O país continua sendo o principal aliado árabe dos Estados Unidos e um baluarte contra a dominação total do Oriente Médio pelo Irã. No entanto, no ano passado, o país passou de quase nenhuma comunicação com a Rússia, para conversações regulares sobre a crise na Síria, venda de armas, e a construção de mais de uma dezena de reatores nucleares russos no reino. Eles até estão conversando sobre a possibilidade de os sauditas fazerem investimentos na Rússia que possam superar $10 bilhões de dólares (em dólares dos Estados Unidos).

Homens armados não identificados (Russos) em patrulha no Aeroporto Internacional de Simferopol, 28 de fevereiro de 2014.

Os Estados Unidos e os seus parceiros europeus estão neste momento relutantes em alocar mais forças terrestres, mas a Rússia não tem tais escrúpulos sob as atuais circunstancias. A Rússia tem a intenção de promover-se como uma nova potência regional e, também um aliado mais confiável do que os americanos.

Além disso, a Rússia está apresentando a ideia de que a sua presença militar pode ajudar a estabilizar o problema dos refugiados. Putin acusou publicamente os Estados Unidos de serem culpados por essa crise, como consequência da falha política externa americana. Isso também vai servir para tentar reatar as relações com os europeus, que foram abaladas devido à intervenção russa na Ucrânia.

Agora a Rússia irá emergir como um intermediário na maioria dos conflitos regionais, substituindo os Estados Unidos, pelo menos por enquanto. Um novo presidente norte-americano em 2017, poderia muito bem reafirmar uma política mais ofensiva, mas os russos terão de ser incluídos em quaisquer novas iniciativas que envolvam a região. Os laços que a Rússia tem com o Hezbollah, o Irã, a Síria, e mais recentemente os Estados do Golfo e o Egito, não poderão ser simplesmente ignorados.

Interceptor de mísseis antibalístico

A Rússia já está tentando intermediar um acordo entre os xiitas e sunitas do Islã, na luta contra o problema mais premente, que é a ISIS, e uma série de outras insurgências jihadistas. Se, por exemplo, não existe uma solução para a guerra por procuração que o Irã e a Arábia Saudita estão lutando no Iêmen, sem dúvida, os russos serão envolvidos em qualquer acordo.

Os russos já se consolidaram como um importante fornecedor de armas no Oriente Médio e, são uma alternativa mais rápida do que os americanos e outros fornecedores ocidentais. Novas e sofisticadas tecnologias de defesa aérea estão em alta demanda no momento, de inúmeros novos clientes, como uma forma de acabar com a supremacia aérea americana, israelense e europeia. Várias nações do Oriente Médio estão cobiçando sistemas de guerra mais avançados. Isso permitirá que esses países consigam bloquear as comunicações e os sistemas de armas teleguiadas no advento de uma guerra.

Até agora, a maior parte da projeção do poder russo tem sido limitada à Europa e ao Atlântico Norte, através do poder naval proveniente do Mar Báltico. O atual e hiperativo papel da Rússia no Oriente Médio vai continuar a aumentar. Em 2013, a Rússia já tinha reintroduzido uma unidade naval permanente no Mediterrâneo. Em 2014, este esquadrão foi reforçado a anexação russa da Crimeia da Ucrânia.

Mapa do Mar Mediterrâneo

Mais uma vez, o anúncio por parte da Rússia de uma nova doutrina naval passou praticamente despercebido pela mídia americana e ocidental. A nova direção da política externa russa exige uma projeção de poder muito maior em direção ao Mar Mediterrâneo e adjacentes. Essa atividade russa elevou o nível de ansiedade de várias instituições de defesa europeias, incluindo as dos países da França, Grécia, Itália e Espanha, já que todos fazem fronteira com o Mediterrâneo.

A Turquia, em particular, está muito preocupada com o aumento da atividade naval russa perto de suas fronteiras, bem como a recente violação do seu espaço aéreo, pela força aérea russa e vários aviões de transporte. Uma Rússia ressurgente pode ser vista como uma grave ameaça à segurança turca, dadas as últimas invasões no território otomano, que é o antecessor da Turquia moderna.

Muitos líderes no mundo árabe e em todo o Oriente Médio estão espantados com a rapidez que o poder americano desvaneceu-se de toda a região em apenas alguns anos. A possível substituição pela Rússia como uma nova força externa não está sendo aceita alegremente, mas tem sido reconhecida como uma alternativa necessária na nova realidade. Segurança tornou-se uma questão fundamental para muitos dos países do Oriente Médio, suplantando o crescimento econômico.

Protestos em Sana’a, Yemen

Esta situação só vai criar mais instabilidade e caos, já que falta de progresso econômico irá garantir um fornecimento estável de jovens indivíduos, que estarão dispostos a sacrificar suas vidas lutando, possivelmente, por desespero financeiro. Isto irá aumentar a pressão sobre os governos remanescentes na região, que serão obrigados de alguma forma a proporcionar mais empregos e oportunidades econômicas. Todavia, isso é uma coisa muito difícil de se fazer quando o país está em perigo de ataques internos e externos.

Uma coisa é certa, com o novo sistema russo de alianças e sua acumulação de forças militares na Síria, qualquer entendimento ou acordo entre os principais intervenientes na região terá de incluir a Rússia. Os militares russos também estão perigosamente perto dos vastos recursos energéticos do Golfo Pérsico. A economia mundial depende desse fluxo de petróleo e gás natural. Esta nova realidade não pode ser facilmente desfeita, mesmo com a atual situação da economia russa e sua moeda desvalorizada.

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