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O longo reinado da OPEP chega ao fim

Na reunião que ocorreu em Viena, na Áustria, no início deste mês, para grande desgosto de um número de países membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), foi decidido que os limites sobre a produção de petróleo seriam abandonado neste momento. Por algum tempo, parecia que o antigo limite 30 milhões de barris por dia seria simplesmente aumentado em 1,5 milhões de barris, a fim de ratificar o que era, na verdade, já realidade.

O total das exportações de petróleo bruto dos países-membros já estava mais para 31,5 milhões de barris do que para 30 milhões há meses. Um aumento negociado entre os países da OPEP, como era de costume no passado, não chegou a se realizar. Já que os membros não chegaram a nenhum acordo, a produção e a exportação de cada país foram totalmente liberadas.

Organização dos Países Exportadores de Petróleo

Já existe um excedente de 2 milhões de barris de petróleo bruto no fornecimento mundial. Como resultado, o preço do bruto tipo Brent, a referência mundial, caiu para o nível mais baixo desde fevereiro de 2009. Nos Estados Unidos, o WTI (West Texas Intermediate) já está sendo vendido abaixo de $40 USD (dólares dos Estados Unidos) por barril. Enquanto que a economia mundial continuar a desacelerar, e a produção de petróleo bruto aumentar, os preços irão continuar caindo.

A OPEP foi fundada em 1960 por cinco países, entre ele o Irã, o Iraque, o Kuwait, a Arábia Saudita e a Venezuela. O Qatar entrou para o grupo em 1961, seguido pela Indonésia e a Líbia em 1962. Os Emirados Árabes Unidos se juntaram a organização em 1967 e, a Argélia em 1969. Durante a década de 70, a Nigéria decidiu fazer parte da OPEP em 1971, depois vieram o Equador, em 1973, e o Gabão em 1975. A Angola foi o último membro a entrar para a OPEP, em 2007.

De dezembro de 1992 a outubro de 2007, o Equador tinha decidido suspender a sua adesão. O Gabão deixou o grupo em 1995 e, a Indonésia suspendeu a sua participação em Janeiro de 2009, que deverá ser reativada no próximo mês. Então, começando em 2016, a Opep terá 13 países membros novamente. A associação pode estar se expandindo, mas a influência do grupo como um todo está cada vez menor.

Relatórios semanais sobre os estoques de petróleo bruto, ou estoques totais (total stockpiles), em tanques de armazenamento como estes, têm forte influência sobre os preços do petróleo.

Os preços do petróleo bruto caíram em 50% desde junho de 2014. A indústria, no geral, está passando pelo seu pior momento desde a década de 1990. As receitas das empresas do setor de energia estão consideravelmente baixas, sendo que há apenas alguns anos atrás os ganhos estavam batendo recordes históricos. A maioria das grandes petrolíferas têm diminuído as suas produções devido à grande queda dos preços, algumas chegando a desativar cerca de dois terços de suas plataformas.

Como um grupo, dessas empresas estão fazendo profundos cortes nos investimentos, tanto para exploração quanto para produção, pois os estoques mundiais já estão muito altos. No mundo todo, mais de 200.000 trabalhadores do setor perderam seus empregos.

As perdas já se espalharam para as indústrias relacionadas ao petróleo, incluindo as que fabricam equipamentos de perfuração de petróleo, bem como outros bens envolvidos na produção do óleo. O excesso de bruto originalmente beneficiou os armadores, já que muitos compradores se mudaram para reabastecer seus estoques a preços mais baixos. No entanto, agora que os estoques estão cheios, está ficando cada vez mais difícil encontrar espaço de armazenamento adicional. Agora isso vai acarretar em uma grande queda da demanda global por transporte.

O presente mercado de petróleo bruto é resultado de uma série de mudanças globais atualmente em curso. Do lado da procura, as economias da Europa e também as dos países emergentes têm diminuído consideravelmente, reduzindo assim a demanda por petróleo. Na Europa, em particular, a eficiência energética dos veículos e nos lares aumentou dramaticamente.

Eólica, solar e biomassa são três fontes renováveis de energia que estão sendo usadas por um número cada vez maior de países.

Fontes alternativas de energia tornaram-se um grande foco de muitos países da região. A corrida das energias renováveis, especialmente a solar e a eólica, tem feito grandes avanços, com a Alemanha assumindo a liderança. Está se tornando cada vez mais comum nos países europeus o aumento de investimentos em fontes alternativas, por decreto dos governos.

Atualmente a OPEP controla apenas 40% da produção mundial de petróleo bruto. Ocorreram algumas grandes mudanças para a indústria na última década. Um dos maiores eventos para o mercado de petróleo foi o retorno dos Estados Unidos como um grande produtor.

A produção americana praticamente dobrou nos últimos seis anos, reduzindo drasticamente a necessidade de importações provenientes de áreas mais voláteis do mundo, como o Oriente Médio. Isso forçou os fornecedores tradicionais, como Argélia, Nigéria e Arábia Saudita, a encontrar novos clientes em outros lugares. Até à hoje, isto tem ocorrido principalmente com a sedenta por óleo Ásia Oriental.

Areias betuminosas de Athabasca

A produção canadense, principalmente por causa do aumento da produção proveniente das areias betuminosas de Alberta, praticamente fez da América do Norte auto suficiente. Apesar da guerra civil no Iraque, a produção lá não diminuiu, pois a maioria dos campos de petróleo estão localizados na parte sul do país, praticamente intocados pelas forças da ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria). Produção russa também está sendo mantida, independentemente dos problemas econômicos e financeiros que o país está passando na atualidade.

No entanto, se os preços do petróleo continuarem a cair, isso vai forçar os produtores menos eficientes a reduzirem a sua produção. Isto incluiria o fracking, que é em grande parte responsável pelo aumento da produção norte americana e da exploração das areias betuminosas no Canadá.

Este aumento da produção na América do Norte é uma das razões pelas quais a Arábia Saudita tem aumentado a sua produção. Os sauditas gostariam de recuperar a quota de mercado que foi perdida na região, fazendo com que seus concorrentes quebrem e deixem de operar.

Os Estados Unidos, o Canadá e vários outros países que encontraram novas maneiras de desenvolver sua produção de petróleo, não estão sofrendo sozinhos com do setor energético. Tanto o Brasil quanto a Rússia se tornaram bastante dependentes das receitas do petróleo, para equilibrar seus orçamentos nacionais e manter o crescimento das suas respectivas economias.

Até mesmo as nações dentro da OPEP estão sofrendo. A Argélia, o Equador, o Irã, a Nigéria e a Venezuela todos precisam que os preços do petróleo aumentem, pois só assim conseguirão manter suas economias e retomar o crescimento. Estas nações têm pressionado o cartel a cortar a produção, a fim de aumentar os preços. O problema é que os principais produtores do Médio Oriente como o Kuwait, o Qatar, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos se recusam a fazê-lo.

Sede da OPEP em Vienna

A Venezuela precisa que os preços no mercado mundial do petróleo bruto seja o dobro do que ele é agora, a fim de conseguir colocar certa ordem no atual caos financeiro que está a sua economia. Mais de 90% das receitas que o país consegue de suas exportações, são originárias do óleo. O representante venezuelano na recente reunião da OPEP estava querendo que o preço do barril fosse aumentado para $88,00 dólares, pelo menos como meta.

A Rússia precisa que o preço do petróleo fique em torno de $96,00 USD por barril, para que os 8 milhões de barris que são exportados diariamente atendam as necessidades do governo. O petróleo é responsável por cerca de 50% do orçamento nacional.

O regime iraniano precisa de preços ainda mais elevados. A fim de equilibrar suas contas, para o Iran o preço do óleo deveria de ser mais de $100,00 USD por barril. A indústria do país só se torna verdadeiramente rentável quando os preços atingirem $135.00 dólares por barril.

Algumas nações da região, como o Iraque, precisam aumentar a produção para poder arcar com os custos das guerras. Assim que todas as sanções comerciais internacionais sobre o Irã forem erguidas, espera-se que a produção de petróleo lá aumente em centenas de milhares de barris por dia.

Conferência da OPEP no Swissotel de Quito, no Equador, em dezembro de 2010.

A Arábia Saudita vem extraindo óleo a pleno vapor, a fim de manter a sua quota de mercado nos mercados mundiais. Eles afirmam que, caso eles diminuírem a produção, os preços nos mercados mundiais iriam aumentar, o que iria beneficiar principalmente seus concorrentes. Embora isto seja verdade, a Arábia Saudita tem na verdade vários outros motivos para manter o fornecimento de petróleo abundante e barato. Eles são capazes de produzir petróleo a $30,00 USD por barril, embora os preços do petróleo a longo prazo precisa estar entre $83,00 e $84,00 USD para equilibrar os gastos nacionais.

O governo da Arábia Saudita decidiu usar o petróleo como uma arma para obter êxito em seus planos de política externa. O principal motivo seria combater a crescente influência do Irã e da Rússia na região. Preços mais baixos para o bruto fazem com que estas nações sejam incapazes de expandir seus poderes no Oriente Médio. O baixo preço do petróleo na década de 1980 ajudou a derrubar União Soviética naquela época. É um exemplo histórico, que o governo da Arábia Saudita tem estudado cuidadosamente. Os sauditas também estão querendo colocar mais pressão sobre o regime iraniano, a fim de limitar o seu apoio aos rebeldes no Iêmen e aos governos do Iraque e da Síria.

Receitas líquidas das exportações de petróleo da OPEP, entre 1972-2007.

É provável que os sauditas irão continuar com esta política, pelo menos até que haja um retorno de mais forças militares americanas e ocidentais para a região. Uma presença maior dos Estados Unidos e da Europa, com certeza faria com que a família real da Arábia Saudita se sentisse muito mais segura em uma vizinhança cada vez mais perigosa.

Haverá, naturalmente, um alto custo financeiro para a Arábia Saudita e seus aliados na região. Estima-se que eles, coletivamente, já perderam um total de $300 bilhões de dólares somente este ano. As enormes reservas cambiais dessas nações, construídas ao longo dos anos de abundância, irão mantê-los, pelo menos no curto prazo.

Todavia, um grande problema irá surgir caso o preço permaneça tão baixo durante um período de tempo mais longo. A maioria dos países do Golfo têm governos que foram capazes de permanecer no poder devido ao acordo que alcançaram com seus cidadãos. Em outras palavras, o povo aceitou bem-estar material e prosperidade, em troca de uma voz mais ativa na arena política. Este acordo estará ameaçado caso as monarquias do Golfo Pérsico começarem a perder muito dinheiro e deixarem de dar ao povo o nível de vida atual.

Gráfico dos maiores produtores de petróleo, mostrando queda na produção do Irã.

A Arábia Saudita, e seus aliados na região, estão fazendo uma outra aposta também. Já que não existem mais limites de produção, o que é a finalidade da OPEP? Hoje em dia a OPEP está muito longe da época em que ela era capaz de ameaçar e prejudicar a economia mundial e influenciar as autoridades na Europa Ocidental, China, Japão e nos Estados Unidos.

O embargo do petróleo começou em outubro de 1973, quando a OAPEC (Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo), além de Egito e da Síria, decidiram reduzir as vendas de petróleo bruto aos aliados de Israel durante uma guerra local. Isso fez com que os preços do petróleo subisse rapidamente no mercado internacional. O preço foi de $3,00 USD por barril, para $12,00 USD internacionalmente e, foram significativamente maiores nos Estados Unidos, em março de 1974, quando o embargo finalmente terminou. Este período ficou conhecido como o primeiro choque do petróleo.

O segundo choque do petróleo ocorreu em 1979. Como resultado da Revolução Iraniana, os suprimentos mundiais de petróleo foram reduzidos em apenas 4%. Mesmo que o abastecimento era suficiente, isso criou um pânico generalizado. Os preços saltaram para $39,50 por barril ao longo dos 12 meses seguintes. Durante esse período era comum ver gigantescas filas nos postos de combustíveis, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Assim como o primeiro choque, as nações da OPEP tiverem lucros recordes.

Arábia Saudita continua a ser o maior exportador da OPEP. A sua contribuição, de cerca de 9,7 milhões de barris, corresponde por quase 1/3 da produção total do grupo. Isso por si só dá-lhes o poder de tentar forjar um acordo ou até mesmo inviabilizar um, dependendo do que eles consideram ser do interesse de sua economia e política externa.

filas em um posto de gasolina de Maryland, nos Estados Unidos, em 15 de junho de 1979.

Ao longo dos anos, a OPEP tem visto a sua contribuição à produção de petróleo mundial cair cada vez mais, todavia, a produção do cartel continua a ser crucial para o abastecimento global em geral. Com o mundo inundado de petróleo e a produção continuando a crescer cada vez mais, os preços vão continuar a cair.

Vários governos, atualmente no poder, não conseguirão sobreviver a esta queda dramática nos preços da commodity. A Venezuela é um dos maiores exemplos disso. Vai ser bem difícil, no curto prazo, para os países membros da OPEP entrarem em um acordo, para reestabelecer quotas e limites de produção para os Estados membros do cartel.

Na atual conjuntura, muitas das nações dentro da organização têm interesses muito divergentes, o que faz com que seja bem difícil chegar a um acordo que satisfaça a maioria. Ao não chegar a um acordo sobre a produção, a OPEP praticamente perdeu a razão de sua existência. O reinado de 42 anos que este cartel energético teve sobre a economia mundial está chegando ao fim. Um futuro choque na interrupção do abastecimento global é inevitável, mas será difícil convencer os membros de cada nação da OPEP a diminuir a produção nessas circunstâncias. Também será difícil aumentar a produção, uma vez que a maioria deles já estará com sua capacidade de produção no máximo.

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